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São Paulo, 10 de Setembro de 2010 - 13h18
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Entrevista: Dorina Gouvêa Nowill, a criadora da primeira imprensa Braille de grande porte no Brasil

Entrevista: Dorina Gouvêa Nowill, a criadora da primeira imprensa Braille de grande porte no Brasil

Dorina Gouvêa Nowill, a criadora da primeira imprensa Braille de grande porte no Brasil

O Jornal SP Norte gostaria de abrir um espaço para cada uma delas. Porém, neste centenário, optou por falar com uma das brasileiras que, mesmo trabalhando somente com a visão intelectual, revolucionou o mundo da inclusão social para pessoas com deficiência visual, mobilizando amigos, falando à sociedade e sensibilizando as autoridades governamentais brasileiras: Dorina Gouvêa Nowill, a criadora da primeira imprensa Braille de grande porte no Brasil, onde já foram impressos milhares de títulos didáticos.

Quem é

Pedagoga, mãe de cinco filhos e avó de doze netos, essa paulista amante do barrabol (esporte parecido com a queimada) nasceu em 1919, apenas nove anos depois que foi criado o Dia Internacional da Mulher. Uma hemorragia rara na retina tirou sua visão aos 17 anos de idade, mas não tirou sua vontade de viver e vencer, muito menos seu espírito de guerreira. Fez questão de continuar seus estudos, mesmo encontrando limites, pois, à época, poucas e caras eram as publicações adequadas a deficientes visuais, não havia professores preparados para receber alunos nessas condições, muito menos vagas em escolas públicas. Dorina conseguiu, em 1945, que fosse implantado o primeiro curso de formação de professores para ensino de deficientes visuais, no Colégio Caetano de Campos.
Fez cursos de especialização em deficiência visual nos EUA, representou o Brasil na ONU, foi presidenta do Conselho Mundial dos Cegos, trabalhou na criação da União Latino-Americana de cegos e do Departamento de Educação Especial para Cegos da Secretaria da Educação de São Paulo dirigiu o primeiro Órgão Nacional de Educação para Cegos no Brasil de 1961 a 1973. Criou, juntamente com amigas, a Fundação Padre Chico - hoje Fundação Dorina Nowill para Cegos.

Com a palavra Dorina Nowill

Antes - Sra. Dorina - gostaríamos de dizer-lhe que, aqui na Zona Norte da Cidade, foi inaugurada recentemente a Biblioteca de São Paulo, com acessibilidade para cadeirantes, impressora que transforma obras literárias em braile, audiolivros, algumas edições em braile e funcionários capacitados para se comunicarem em LIBRAS.
Esse espaço mostra que a sua luta não foi em vão, e que suas palestras tiveram eco e aceitação. É pouco, bem sabemos, mas é um começo e um belo exemplo a ser seguido para implantação em todos os municípios do Brasil.
SP Norte: Numa época em que ter alguma deficiência era ficar ´escondido´ em casa, o que lhe impulsionou ao sentido contrário? Fale um pouquinho sobre isso.
Dorina: Não havia muitos centros de reabilitação no Brasil. Nem sequer desconfiava que eles existissem em outras partes do mundo, muito menos vislumbrava as técnicas de reabilitação que surgiram no pós-guerra.
Minha primeira experiência com uma instituição de atendimento foi o Instituto Padre Chico em São Paulo e o Benjamim Constant no Rio de Janeiro.
O preconceito em relação às pessoas cegas era muito arraigado. Naquela época muito mesmo. Uma pessoa cega não podia lecionar, não podia ser funcionária pública, não podia assumir cargos porque a cegueira era um empecilho legal. Hoje, existem leis que reconhecem os direitos do cidadão deficiente.
SP Norte: De todas as barreiras que a Sra. precisou enfrentar, qual lhe proporcionou maior satisfação e lhe marcou mais?
Dorina: Na época em que fiquei cega, os estudantes deficientes visuais não tinham acesso à cultura e à informação devido à falta de livros. Eu e um grupo de amigas começamos a transcrever livros em braille. Começamos a procurar pessoas cegas que precisassem de atendimento. Foi um trabalho difícil convencê-las que elas poderiam ambicionar ou se preparar para um emprego remunerado. Uma das coisas que havia me impressionado nos Estados Unidos foi o trabalho de pessoas cegas no mercado comum.
Sempre tive um sentimento íntimo de satisfação de ter participado de todos os movimentos de prevenção da cegueira, que se realizaram desde o início da Fundação. A prevenção à cegueira não é um assunto exclusivamente médico. Precisa incluir além das áreas médicas e paramédicas, psicólogos, professores, assistentes sociais, nutricionistas e organizações sociais da comunidade.
Outro grande orgulho sempre foi a distribuição de livros em braille para todo o território nacional, através das secretarias estaduais e municipais de educação, das organizações de e para cegos e aos cegos individualmente. Inclusive os livros falados, cuja produção também se ampliou ao longo dos anos.
O trabalho realizado na Fundação aos poucos foi se tornado cada vez mais baseado em projetos. Projetos para a imprensa braille, educação, reabilitação, profissionalização e assim foi possível o crescimento de atuação da instituição.
SP Norte: O que falta o Brasil implementar para a total integração dos deficientes?
Dorina:Medidas a curto e longo prazo foram tomadas conforme as possibilidades do momento e do alvo ambicioso. Custou, levou tempo, infelizmente nem tudo é perfeito. Quando me vem à mente, analisando o trabalho e o esforço de tantas pessoas, só posso pedir a Deus que com todo o fervor que mantenha acesa no coração dos homens a chama do impulso para as realizações. A força do ideal e a coragem da dedicação são elementos essenciais, para que as obras que têm como objetivo o homem propriamente dito, a sua felicidade e o seu bem-estar, possam prevalecer em qualquer sociedade presente ou futura. Plantamos e nem sempre vemos o fruto do nosso trabalho completo, mas felizmente outros continuarão.
SP Norte: Qual mensagem a Sra. deixa às brasileiras - leitoras do nosso Jornal, em especial àquelas que tenham que superar limites impostos por alguma deficiência?
Dorina: Há sempre algo mais além da vida dos males e das deficiências que a vida nos apresenta. Para além da dúvida, existe fé. Para além do sol, existe calor e a energia quando a luz se apaga. Para além da vida, a eternidade.

Sobre a Fundação

Os seus 91 anos não impedem Dorina de continuar à frente de sua Fundação, na qual comparece, pelo menos, duas vezes por semana, nem de continuar presidindo palestras.
Quem quiser conhecer mais de perto seu trabalho em prol das pessoas com deficiência visual, é só visitar a Fundação Dorina Nowill para Cegos, na Rua Doutor Diogo de Faria, 558 - Vila Clementino, a qual também aceita doações.


Fonte: SP Norte
sp.norte@terra.com.br

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