6 a cada 10 mulheres já sofreram algum tipo de assédio em São Paulo

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Na última quarta-feira (4) foi divulgado um estudo no qual mostrou que 63% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio na capital paulista. A pesquisa “Viver em São Paulo; Mulher”, da Rede Nossa São Paulo, foi feita em memória ao Dia Internacional das Mulheres, celebrado no dia 8 de março.

Segundo o estudo, o local onde essa prática mais ocorre é no ônibus, com 46% das entrevistadas declararem terem sido vítimas de assédio. O resultado da pesquisa revelou que, de 2018 até ano passado, houve um aumento de cinco pontos percentuais no número de assédio.

Os outros locais que aprecem na pesquisa são: a rua, com 24%; bares e casas noturnas somam 8%; pontos de ônibus são 7%; e, por fim, transporte particular – como aplicativos e Táxis – e ambiente familiar, 3%.

Por receio de sofrer algum tipo de assédio ou violência, 51% das mulheres deixam de andar na rua no período da noite. Vale destacar que, no estudo “Viver em São Paulo: Pedestre”, 8 a cada 10 paulistanos não se sentem seguros quando andam pela cidade como pedestre.

“É difícil ser mulher no mundo”

Desabafa a produtora visual Ingrid Felix, mãe da pequena Ayoluwa N’Jinga, recém completado um ano. Assim como diz o estudo, ela revela que “Pegar ônibus sozinha é muito complicado, é desafiador, porque a qualquer momento pode acontecer algum assédio contra você”.

Ingrid Felix com sua filha Ayoluwa N’Jinga brincando em um balanço – Foto: arquivo pessoal

A produtora ainda descreve que já sofreu assédio enquanto estava a caminho de um passeio “estava com saia que é tipo ‘curta’, normal. Aí o cara encostou do meu lado, não tava cheio o Metrô, mas ele chegou do meu lado e passou a mão na minha perna, aí eu fiquei totalmente sem reação”.

No entanto, apesar do constrangimento que sentiu, Ingrid conta que, na ocasião, não tinha identificado o ato como assédio “Talvez por na época não ter tantas informações como hoje [sobre as formas de assédio]”, explica.

Ingrid aponta que, um dos motivos que levam ao ato de assédio é que, em grande parte, a sociedade “não pune quem deve ser punido, mas pune a vítima”. Segundo ela, o que reforça esse argumento é que “quando acontece esses casos de assédio [no ônibus], muitas vezes a galera do ‘busão’ não faz nada”.

Por fim, a produtora revela ter “preocupação em dobro” por ser mãe de uma menina. No entanto ela afirma que irá orientá-la para que sua filha saiba como agir caso esse tipo de violência ocorra ela.

 Outros indicadores

O estudo também mostrou que 31 % das paulistanas sofreram algum tipo de discriminação ou preconceito nos postos de trabalhos por serem mulheres. A pesquisa mostrou que houve um aumento de 7% em relação ao último levantamento, em 2018.

No entanto, houve um avanço entre as mulheres que dividem as tarefas domésticas e cuidados com os filhos. No ano passado a pesquisa havia mostrado que 33% das entrevistadas não dividia os cuidados com o filho com ninguém, já neste ano o número caiu para 18%.

Feminicídios na Zona Norte

De acordo com o Mapa da Desigualdade 2019, também da Rede Nossa São Paulo, as regiões de Jaçanã, Casa Verde e Vila Guilherme estão entre os 10 distritos com mais registros de casos de feminicídio na capital paulista. O relatório apresentou números das 96 regiões do município.

Dos três distritos da zona norte, Vila Guilherme destaca-se por estar entre as três regiões mais perigosa para as mulheres, contabilizando 3,54 ocorrências de feminicídio a cada 10 mil mulheres. Casa Verde (2,29) surge em quinto lugar e Jaçanã (2,05) fica na sétima posição.

No entanto, vale mencionar que os bairros Sé e Barra Funda, primeira e segunda colocação, respectivamente, são conhecidos por serem regiões comerciais, ou seja, locais de intensa movimentação e concentração de pessoas, o que ressalta ainda mais o problema de Vila Guilherme, região com características mais residencial.

Combate à violência e ao assédio

De 100 mulheres, 48 responderam que a melhor forma de combater a violência e ao assédio é aumentar as penas para quem comete este tipo de crime. Logo em seguida aparecem “agilizar o as investigações das denúncias, com 40%, e ampliar os serviços de proteção às mulheres, (39%).

Promover campanhas de conscientização surge apenas com 22% das menções. Aparecem com 21% o treinamento de profissionais de acolhimento e o fortalecimento dos serviços da assistência social.

O que diz a Prefeitura?

A Prefeitura respondeu que promove capacitação de profissionais de ônibus sobre como lidar com situações de assédio. Além disso, a SPTrans informou que “realiza campanhas preventivas sobre assédio em materiais afixados nos ônibus, terminais e publicados em seus perfis nas redes sociais”.

O órgão ainda informou que aderiu à campanha “Juntos podemos parar o abuso sexual nos transportes”, que conta com a cooperação de instituições públicas e privadas para combater a violência sexual nos transportes e estimular a denúncia para que os agressores sejam punidos.

A gestão municipal ainda destaque que em novembro de 2019 foi inaugurada a Casa da Mulher Brasileira, que acolhe vítimas de violência  e encaminha para diversos serviços, como local de abrigo provisório, brinquedoteca, Delegacia Especializada da Mulher, Defensoria Pública, Programa Guardiã Maria da Penha da GCM, Ministério Público e Tribunal de Justiça do Estado.