Zona Norte

Autor da Zona Norte publica livro com histórias de Raul Seixas

::: Bruno Viterbo

Raul Seixas completaria 70 anos em junho, se não tivesse partido para as estrelas. O pai do rock brasileiro deixou uma legião de músicas históricas e muitos, muitos fãs espalhados pelo mundo – ou melhor, universo – afora. Entre esses fãs está Leonardo Mirio. Morador da Zona Norte, no bairro do Tucuruvi, o historiador e filósofo acaba de publicar o livro de entrevistas Raul Nosso de Cada Um. São 36 depoimentos de amigos, músicos, fãs e pessoas próximas ao cantor durante toda a metamórfica e ambulante carreira de Raul. Com bastidores de shows, histórias pessoais e depoimentos emocionados, o livro é mais um pedaço nesse quebra-cabeça chamado Raul Seixas.

Em dez meses de entrevistas, principalmente aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro, Leonardo colecionou histórias marcantes. Dois dos entrevistados também são da Zona Norte: Sylvio Passos e Aguinaldo Pedroso, que narram passagens de Raul pela região. Uma delas é hilária, quando o cantor perdeu os dentes.

Ainda na Zona Norte, Raul participou do festival de música Phono 73, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em 1973. O evento, de acordo com o site do acervo do Anhembi, foi “um evento de enfrentamento à repressão social, cultural, artista e política promovida pela ditadura militar na época”. No show, Raul Seixas transformou a música “Loteria da Babilônia” em uma intervenção artística, onde lançou a “semente de uma nova idade” enquanto pintava o símbolo da Sociedade Alternativa no peito. Anos depois, Raulzito seria velado no Palácio das Convenções, com uma multidão de fãs que entoavam as históricas músicas e chegaram até a derrubar o corpo de Raul.

O livro é focado nas histórias e causos de pessoas próximas a Raul Seixas, e temas polêmicos foram abordados, como o alcoolismo e drogas. Entre depoimentos fortes e situações pitorescas, as entrevistas mostram Raul como um ser humano com virtudes e defeitos, estampados de maneira indiscutível em suas canções. “Ele foi um cara que soube captar o que estava acontecendo no mundo e teve a sensibilidade de conseguir transmitir aquilo nas suas letras. Raul foi fiel à sua obra, ao que ele pensava. Até o fim”, afirma Leonardo.

A carreira de Raulzito se deu em plena ditadura. Suas músicas com letras às vezes misteriosas, às vezes sarcásticas, conseguiam driblar a censura dos militares. Porém, quando Raul começou a citar a Sociedade Alternativa, filosofia adotada por Seixas e por vários de seus fãs, como Leonardo – o cantor não teve a tranquilidade que o livro aparenta.

Nos depoimentos, os entrevistados não tocaram muito no assunto – “Foi uma coisa natural mesmo. As pessoas falavam, eu as deixava livres”, conta Leonardo – ainda que Raul tivesse alguns problemas com a polícia depois dos shows. Em um deles, Raul grita: “E o Geisel, o que ele é?”. A resposta da plateia é impublicável.

Raul Seixas virou mito por ser um talentoso músico, mas contraditório, às vezes ingênuo, completamente desapegado ao dinheiro, humilde e introspectivo. A maioria dos entrevistados mostra esse lado de Raul, como Sidney Valle: “o que ele fazia no show era uma festa”. Para outros, essa “festa” tornara Raul “um artista absolutamente impraticável”, como afirma Fredera, guitarrista, ou que “foi o pior cara com quem eu já trabalhei na vida”, de acordo com Sidney Valle, também músico. A combinação de álcool – “O grande mal do Raul foi o álcool”, afirma Leonardo – e drogas suscitaram diferentes visões do cantor, um interessante mosaico de como o “Maluco Beleza” virou o mito venerado até hoje.

“Ele se tornou um líder messiânico”, diz Leonardo. Como explicar isso? “A verdade dos textos dele. O Raul cantava o sentimento que as pessoas tinham, e ele colocava isso de uma maneira simples. O Raul atingia todas as classes, porque são problemas que todos têm, ele falava a língua de todo mundo. Ele era sério em relação ao sentimento dele e no que ele acreditava. Então era a verdade dos textos do Raul, foi o que tornou ele um mito”.

Hoje, Leonardo não vê nenhum destaque do rock no cenário nacional – “eu considero Chico Buarque, Zeca Pagodinho, muito mais roqueiros do que muito roqueiro por aí. Porque rock pra mim é atitude. O Zeca é todo malandrão, na linha dele ele é um rocker!”, afirma – mas vê em Pitty, roqueira e baiana como Raul, “uma pessoa coerente nos textos, nas músicas dela”. O autor do livro também não foi a nenhum show do ídolo – tinha 12 anos quando Raul morreu, em 1989. O contato se deu pelo programa infantil Plunct, Plact, Zuuum e, depois da partida do cantor, Leonardo passou a admirar a obra de Rauzito.

E se o pai do rock estivesse vivo? “O Raul era um cara muito crítico, né? Ele continuaria sendo irônico, e ia esculhambar, com certeza! Ia esculhambar a música, ele ia ver a degradação da música. Ele pegou o começo do axé e zoou para caramba. Você imagina o que veio depois… O Raul ia tirar um barato!”, finaliza o fã e autor de um dos livros mais completos sobre a carreira do pai do rock nacional.

Veja aqui a entrevista completa: Ele é esse quebra-cabeça ambulante

Onde comprar o livro Raul Nosso de Cada Um

Patriota Designer: www.patriotadesigner.com

Bar do Kaká: Rua Augusta, 514

Raul Rock Club (fã-clube): www.raulrockclub.com.br

Facebook: Leonardo Mírio e O Eco de Suas Palavras



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