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Editorial | Bondade cruel e o atraso

Uma das notícias mais importantes desta semana, apesar de vir de outro país, tem muito a ver com o Brasil. O clipe de “This is America”, música de Childish Gambino – nome artístico do rapper e ator Donald Glover –, certamente entrará para a história como uma das mais contundentes críticas ao racismo enfrentado por negros no país (des)governado por Donald Trump.

Uma sequência bombástica e repleta de significados traz à tona as performances racistas do início do século XIX, em que o “comediante” Thomas D. Rice criou o personagem Jim Crow, que zombava dos negros. Evidentemente, Rice era branco e se pintava. Daí a expressão “blackface”, prática que é usada de forma às vezes intencional, às vezes com o mesmo propósito de difamação.

Há referências a danças africanas – em meio ao caos no fundo do cenário. Uma alusão ao entretenimento proporcionado por estrelas, em que os negros estão em destaque, mas o público não se envolve tanto quanto com o caos e massacres contra esta população; a cultura pop esconde e camufla os problemas. Armas – que matam negros – são tratadas com o maior cuidado, enquanto o corpo – negro – é retirado de cena da maneira mais torpe.

Essas são algumas das mais simbólicas referências do clipe. As análises e interpretações de cada cena estão aos montes nas redes sociais e sites. É uma coincidência que o clipe, lançado na última segunda-feira (7/5), esteja próximo a uma data peculiar aos brasileiros: 13 de maio, dia da sanção da Lei Áurea, há 130 anos. Liberdade, realidade ou ilusão? Está extinta a escravidão no país das Américas que mais demorou a abolir?

A escravidão permanece a cada desvio que você faz na rua ao ver um negro vindo da outra direção. Está em cada vez que você não se senta ao lado de um negro no ônibus. Está em cada vez que você fala “neguinho/a”. Está quando você chama uma negra de “morena” ou “mulata”. Está em cada piada ou comentário nas redes sociais. Está em cada vez que você, branco, questiona a validade da expressão “100% negro/preto” e acha um absurdo não poder usar uma camiseta com a expressão “100% branco”. Está em cada vez que você fala que o cabelo é “ruim”.

A pergunta que a Paraíso do Tuiuti fez no histórico carnaval deste ano tem resposta. “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?” é uma súplica, que pede aos céus, e questiona algo que permanece, ainda que abolida, não está extinta.

Os versos inspirados do samba-enredo, talvez, respondam: “E assim, quando a lei foi assinada / Uma lua atordoada assistiu fogos no céu / Áurea, feito o ouro da bandeira / Fui rezar na cachoeira contra a bondade cruel”. Ou, voltando no tempo, outro samba: “Livre do açoite da senzala / Preso na miséria da favela”, como cantou a Estação Primeira de Mangueira nos cem anos da lei, em 1988.

A “bondade cruel” largou à própria sorte o destino de quem outrora era mercadoria. Hoje, são relegados às periferias, à miséria das favelas, aos mandos e desmandos, à cegueira do poder público, ao extermínio praticado pelo Estado, à pobreza, ao subemprego, à exclusão social, ao destino incerto.

São questões de um Brasil atrasado – como bem afirma o pesquisador Jessé Souza no livro “A Elite do Atraso”: “Ideias velhas nos legaram o tema da corrupção dos tolos, só da política, como nosso grande problema nacional. Na corrupção real, no entanto, o problema central – sustentado por outras forças – é a manutenção secular de uma sociedade desigual, que impossibilita o resgate do Brasil esquecido e humilhado”, diz o texto na contracapa. Uma elite que se perpetua dona de um poder que torna sem fim “uma sociedade excludente e perversa, forjada ainda na escravidão”.



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