Teatro

Lutas negras por liberdade: peça da Cia. Os Crespos chega à Zona Norte

Ê Kalunga, Ê Kalunga
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor

Os versos acima são do aclamado samba da vice-campeã do carnaval carioca, a Paraíso do Tuiuti. Um desfile histórico: o enredo Meu Deus, Meu Deus… Está Extinta a Escravidão? questionou e denunciou as mazelas que assolam o país, da escravidão através dos tempos até a perda de direitos do trabalhador atualmente. Nesse processo, lutas – sobretudo da população negra – em busca da liberdade se fazem presentes. Até hoje.

*****

“Sabe esse passado que não passa? Pois é… Enquanto houver senhores e escravos não estaremos dispensados da nossa missão.” (Heiner Müller, dramaturgo)

A frase acima, do escritor da peça A Missão: Lembrança de Uma Revolução dá o tom ao espetáculo Alguma coisa a ver com uma missão, da Cia. Os Crespos, que será apresentado na próxima terça-feira (6/3) na Praça Sete Jovens, no Jardim Elisa Maria. Depois da apresentação, haverá debate, em parceria com a Terça Afro.

No palco – que, aqui, é a rua (ou as escadarias do Theatro Municipal, em apresentação nos dias 16 e 17) – as lutas negras por liberdade, em meio às revoluções sociais e políticas na América Latina. Levantes negros no Brasil e no Caribe e revoluções poéticas a favor da abolição do racismo encontram-se com o presente, em uma história que atravessa o tempo. Passado e futuro se encontram, com personagens em trânsito por nossa sociedade. Tal como tochas acesas, as lutas por liberdade são o estopim de transformações antirracistas.

O espetáculo baseado na peça de Müller traz à cena duas personagens: uma auxiliar de enfermagem e uma gari. Convocadas por meio de um sonho a viajar nas águas da Calunga (da língua banto, que significa oceano, mar e grande cemitério), as duas mulheres tem uma missão, transmitida pela barqueira.

No percurso, enigmas que a dupla tem que desvendar para que seus destinos se cumpram. Uma alegoria que transporta o público para uma viagem aos levantes negros por liberdade, símbolos de resistência, com trajetórias tornadas invisíveis pela história contada na maioria dos livros.

foto: Roniel Felipe/Divulgação

“Com este espetáculo queremos resgatar as pequenas e grandes conquistas do dia-a-dia daqueles que, inversamente ao que até hoje se supôs, resistiam a se tornar meras engrenagens do sistema que os escravizara. Esse é o ponto de partida para uma verdadeira mudança de ponto de vista sobre a participação negra numa possível reestruturação social”, afirma Lucelia Sergio, uma das fundadoras da Cia. Os Crespos (clique AQUI e acesse a página do grupo no Facebook).

Durante a peça, cantos vissungos dão o tom, com músicas próprias e recriação de cantos originais, que acompanham toda peça e as ações das personagens. Vissungo é um tipo de canto afro-brasileiro, cantados por descendentes de escravos e até hoje presentes em manifestações populares e quilombos de Minas Gerais, origem deste canto.

A temporada de Alguma coisa a ver com uma missão já passou por outras regiões da cidade, em São Luís do Paraitinga e Franco da Rocha. No Jardim Elisa Maria, será a penúltima apresentação e, por fim, as duas exibições nas escadarias do Theatro Municipal.

Informações
6/3 (terça-feira), às 19h: Praça Sete Jovens (Rua Pedro Pomar – Jardim Elisa Maria)
16 e 17/3 (sexta-feira e sábado), às 20h: Praça Ramos (Centro, início nas escadarias do Theatro Municipal)
Grátis

fonte: Cia. Os Crespos/Assessoria de imprensa
foto (topo): Roniel Felipe/Divulgação
foto (Paraíso do Tuiuti): Paulo Portilho/Riotur



Topo