Gente que Faz

Coletivo multiartístico promove ações culturais na Zona Norte

“A Casa no Meio do Mundo é um coletivo de artistas e produtores culturais de diversas linguagens, formado na zona norte de São Paulo”. Este é um  trecho tirado da página da rede social que pode resumir um pouco da Casa no Meio do Mundo. Formada há seis anos, o coletivo passou por algumas regiões da zona norte, até estabelecer-se no Jardim Brasil.

O inicio da Casa no Meio do Mundo aconteceu na casa do membro do coletivo Jesus dos Santos. Na época ele morava de aluguel no bairro do Jardim Japão, no distrito de Vila Maria. A proposta era ter algum espaço cultural na zona norte com linguagens periféricas.

O nome surgiu de uma brincadeira “Estávamos tirando umas fotos eu [Ingrid], Jesus e um amigo. E aí fizemos as fotos e postamos no Facebook, na hora de colocar o local onde estávamos, pensamos casa no centro do mundo, aí falei no centro é muito pretensioso, no meio é melhor” explica Ingrid Felix, uma das fundadoras do coletivo.

As primeiras atividades foram o “Sarau no Meio do Mundo” e o “Ensaio no Meio do Mundo”, que movimentou diversos grupos de Rap da região (se tornariam presentes na maior parte das ações). Segundo Ingrid Felix e Jesus dos Santos, “Teve dia que iam 100 pessoas”, eles contam que, mesmo com a divulgação do Ensaio sendo boca a boca, “Todo mundo [do movimento do Rap] passou nesse rolê [sic]”.

Sarau no Meio do Mundo na Biblioteca Educa Chaves

A maior dificuldade era arranjar espaço para todos. Jesus conta que jogava o colchão em cima da mesa para encaixar mais gente. A sorte foi que na casa haviam poucos móveis, pois ele teria doado a maior parte, ficando apenas com geladeira, fogão, colchão, mesa e cadeira. “Ele tava numa pira de doar coisas e de compartilhar espaço” conta Ingrid.

A partir da participação dos grupos nas ações, eles começaram a propor novas atividades para o espaço. A Casa no Meio do Mundo passou a ser frequentada por agentes culturais quase todos os dias. Para se manter no espaço e captar recurso o coletivo vendia caldos à comunidade do entorno “Nos vendíamos umas sopinhas, era 2 conto. Pegava xepa na feira e aí a gente fazia umas sopas e vendia em copo por R$ 1 e R$ 2. E a galera super comprava”.

A quantidade de pessoas que frequentavam o espaço passou a incomodar a dona do imóvel, que depois de cinco meses, pediu para eles saírem. A atitude de deixar a casa é discutida pelo grupo até hoje.

Após a saída, no final de 2014, o coletivo tentou uma ocupação numa associação de moradores na Vila Ede que estava abandonada há 20 anos. Mas depois de dois dias, o coletivo decidiu sair do espaço. Jesus conta que foi um momento ruim em sua vida “Eu não tinha para onde ir. Não tinha onde por as coisas”.

Como o coletivo conhecia o Centro Independente de Cultura Alternativa e Social (Cicas), a partir das oficinas de audiovisuais que aconteciam no antigo espaço da Jardim Japão, foi então que, em novembro de 2014, a Ingrid e Jesus passaram a morar na ocupação Cicas “No inicio foi bem dahora, porque nós chegamos com um gás da p***”.

O gás acabou rápido, isso porque no primeiro semestre de 2015, o coletivo da Casa no Meio do Mundo buscava transformar o espaço, causando conflitos e desgaste entre eles próprios e com os membros do Cicas. “Várias tretas, várias brigas…”, diz Jesus.

Foi durante esse período que a eles passaram a conhecer mais o território “Espaço de muito aprendizado”. Para Ingrid, a ocupação no Cicas “Foi intensa!”, ela destaca que foi a oportunidade de participar, pela primeira vez, de algum movimento social. Para Jesus, a ocupação foi uma “Faculdade do que é gestão cultural”. “A gente acordava 8h da manhã e as 9h já tinha gente lá”.

Foto da ação Faça da Sua Praça Sua Casa

As ações tinham o objetivo de envolver mais a população do entorno, por conta disso os eventos eram realizados tanto dentro do Cicas, como no entorno, sendo na praça, pista de skate e quadras da região. Por conta da Ingrid e Jesus estarem 24h no Cicas, eles passaram a “gerir” a ocupação, desenvolvendo ações diárias, como conta Ingrid “Fazíamos atividades mais pra suprir o espaço […] Foi uma época que a gente deixou de fazer ‘umas coisas’ exclusivamente para o coletivo”.

O coletivo “voltou a reoxigenar” no segundo semestre de 2015 com a chegada do Akilah Jelani e da Luana Maria Ferreira Martins à Casa. A primeira ação exclusiva da Casa no Meio do Mundo, depois de anos, foi a “Faça da Praça Sua Casa”, onde reuniram músicos, dançarinos, artistas de teatro e poetas para se apresentarem nas praças da zona norte. A ação durou cerca de dois anos, com diversas edições na zona norte

A Casa no Meio do Mundo ainda ficaria dois anos ocupando o Cicas. Durante essa estadia que o coletivo começou a participar do Movimento Cultural das Periferias (MCP).

Atração na Biblioteca Edu Chaves

No fim de 2015, o coletivo se aproximou da Biblioteca Pública Jose Mauro Vasconcelos, em especial da coordenadora Sandra Cristina Brasil Silva, e passou a realizar ações culturais no espaço. “O Sarau no Meio do Mundo foi retomado na Biblioteca” conta Akilah.

Para Ingrid “A gente literalmente ocupou a biblioteca”, segundo ela, a proposta da gestão junto com a do coletivo foi de mostrar que a Biblioteca também “é um lugar para gente fazer roda de conversa. Pra gente ter música. Pra gente conversar…”.

Foi em 2016 que marca a despedida da Casa no Meio do Mundo do Cicas. Jesus e Ingrid passaram a morar de favor na região central, porém ainda realizavam ações na zona norte. A situação durou cerca de oito meses. Para sustentar-se, os dois tinham que se virar vendendo produtos do farol e dando “catracada” para participar das ações do coletivo.

Projeto Cultura Comunica na Escola Estadual Victor dos Santos Cunha

Ainda em 2016 a Casa teve sua grande virada. Seu projeto “Cultura Comunica” foi prestigiado pela nova lei de Fomento à Periferia, o que ajudou a trazer Ingrid e Jesus de volta à zona norte. Com a Casa focada na produção e execução do projeto na Escola Estadual Victor dos Santos Cunha, as ações externos ficaram restritas na Biblioteca, porém com um repertório maior de atividades culturais, com o Festival Literário, Chega na Dança e eventos de grafite.

Com a ajuda do Fomento à Periferia, a Casa no Meio do Mundo inaugurou sua nova “Casa” no Jardim Brasil. Porém a Biblioteca do Edu Chaves não deixou de receber atividades do coletivo.

Com a nova sede, a Casa passou a realizar suas atividades mais importante no espaço, como o Sarau no Meio do Mundo, uma das primeiras ações do coletivo. Os primeiros dias na nova sede serviram para a Casa no Meio do Mundo conhecer melhor o território. Suas atividades já fizeram a diferença no dia a dia dos moradores do bairro. Nas duas férias de verão, o coletivo realizou ações para a criançada como cinema, vídeo-game, piscina e “balada infantil”.

Atualmente mais grupos realizam ações na sede da Casa. Durante a semana, coletivos culturais promovem atividades, deixando quase toda a semana repleta de ações. Contudo, Jesus crítica: “Sem dinheiro, manter atividades regulares é difícil pra caramba, porque embora a gente seja do coletivo aqui do espaço, a vida segue para todo mundo e todo mundo precisa arrumar uma grana”.

Entre os coletivos estão o bloco de carnaval “Sem lei”, o grupo de estudos “Fluxo de ideias”; a “AZN – Dança de Ataque”, o Coletivo CU (Circulo de União), e Capoeira. “O espaço está aí pra ser usado”, finaliza Ingrid.

Ingrid Felix

Morava em Osasco antes de “se jogar” na Casa do Meio do Mundo. Ingrid trabalhava “formalzinha” numa empresa, porém tinha um desejo de desenvolver alguma ação, foi quando conheceu Jesus dos Santos, e juntos, fundaram a Casa no Meio do Mundo.

Desde então a vida de Ingrid mudou completamente. Ela conta que passou a enxergar que artistas e produtores culturais também são trabalhadores “Por que não fazer disso também meu trabalho?”. Com este objetivo de vida, começou a estudar e investir seu tempo no coletivo.

Por conta de seu envolvimento com a Casa no Meio do Mundo, sua realização pessoal se tornou algo compartilhado com o coletivo “poder ajudar os coletivos das quebradas” conta. Ela também destacou que seu desejo é de que “outras pessoas multipliquem isso que a gente está fazendo [fomentar cultura periférica]” finaliza.

Akilah Jelani

Antes de iniciar na Casa no Meio do Mundo, o produtor cultural Akilah Jelani “fazia uns rap” com o artista Timm Arif, porém as tarefas do dia a dia levaram-no a sair do grupo para trilhar uma “vida de pai de família e trabalhador comum”.

Mesmo assim seu desejo de desenvolver algum projeto cultural permaneceu. Ele tentou mobilizar uma rádio comunitária na Savic, mas acabou não acontecendo.

Sua vida deu uma virada quando se envolveu com a professora e produtora cultural Luana Maria Ferreira Martins. Juntos, eles conheceram a Casa no Meio do Mundo quando o coletivo ainda estava no Cicas. Desde então os dois entraram para o coletivo e passaram a realizar ações no território.

Jelani conta que não teve mais nenhum final de semana de folga “todo meu tempo livre é pro coletivo”. Contudo ele tinha que conciliar o emprego, a família e as ações da Casa. Para tentar dar o máximo de atenção a tudo isso, Jelani acabava levando sua família para as ações.

Mesmo se dedicando tanto, Jelani se sente bem “Aquilo faz você se sentir vivo. Daquele jeito você se sente útil”. Como expectativa futura, ele quer aproximar as atividades da Casa com a relação de trabalho “Tornar essas atividades [algo] mais próximo possível de sobreviver fazendo elas”. Além disso, compartilha o desejo de “Cada vez mais fortalecer esse espaço”.

Jesus dos Santos

Nascido em Salvador, Jesus do Santos trabalhava no Jornal Beiru, onde realizava ações similares a que hoje prática na Casa no Meio do Mundo “Não era muito diferente”. Por conta de seu envolvimento político, veio para São Paulo, mas acabou saindo do grupo por divergência ideológicas.

Foi morar em Carapicuíba, na grande São Paulo, onde conseguiu conciliar seus estudos com seus fazeres artísticos de discotecagem. Quando arranjou um emprego como sócio de uma marcenaria, se mudou para o Jardim Japão, onde seria o inicio do coletivo.

Jesus conta que, mesmo sendo sócio, enfrentava preconceito de seus colegas, levando-o a sair da loja para iniciar um empreendimento em desing de interiores, sua área de formação.

Atualmente, ele reflete que a atuação da Casa foi fundamental no processo de fomentação e consolidação de diversos coletivos. Jesus acredita que o próximo desafio da Casa do Meio do Mundo seja de consolidar ainda mais a ação e de entender o território.

*Fotos tiradas da rede social da Casa do Meio do Mundo



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