Editorial

Editorial | Discursos e extremos

A última e polêmica (para não dizer tenebrosa) edição do Roda Viva (TV Cultura), o programa de entrevistas mais antigo do país, expôs algo interessante que está acontecendo no Brasil: a polarização dos extremos, de direita e esquerda, em que cada um dos lados vê como única possibilidade um rumo para a nação. Isso configura um grande erro: todas as posições extremistas ao longo da história se revelaram ultrajantes.

A entrevista com a pré-candidata Manuela D’Ávila (PC do B), a despeito da posição política que o leitor adota, configurou-se um festival de manterrupting. O termo inglês, algo como interrupção constante enquanto uma mulher fala, ganhou os holofotes. Afinal, a presidenciável fora interrompida 62 vezes – outros candidatos já entrevistados não passam de 10 interrupções. Entrevistadores explicitamente contrários à posição política da candidata, com perguntas que mais pareciam discussões (geralmente, vazias) de redes sociais do que de um projeto para o Brasil – concorde com ele ou não. Afinal, o Roda Viva é um programa de entrevistas – em que, por definição, o entrevistado tem a palavra – ou um tribunal inquisidor, como pareceu?

As falas lá explicitadas mostram que se há uma extrema direita, a perda de liberdade é imperiosa. Não muito distante de nossa história, a implantação de uma ditadura. Ao passo que a extrema esquerda, com o comunismo (aliás, definitivamente distante daquilo que o partido de D’Ávila é hoje), o extremo assistencialismo faz com que as pessoas se acomodem a receber direitos sem atribuição de seus deveres.

Durante a entrevista, vimos posições extremistas de um integrante da coordenação de campanha de Jair Bolsonaro (PSC), Frederico D’Ávila (um sobrenome e uma coincidência infeliz), como castração química para estuprador, ou que o fascismo “é de esquerda”. Suas opiniões reverberam muito daquilo que se ouve por aí: bandido bom é bandido morto, nenhum político presta, etc.

Por outro lado, há quem defenda que todo bandido tem conserto. Que é preciso afrouxar as leis, valorizar o lado social e humano. No entanto, não há ações efetivas.

Embora pareça ser uma postura em cima do muro, o ideal é que pudéssemos colher o que há de melhor em uma posição de esquerda e de direita. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: só assim é possível fazer uma análise do que o país precisa, e garantir que tudo seja valorizado: o lado social, econômico, infraestrutura, segurança.

O que aconteceu no Roda Viva foi esclarecedor. Ainda que Manuela D’Ávila tenha argumentos positivos, acabou por observar apenas um só lado da moeda – o próprio, como é padrão no jogo de interesses em qualquer política em que esquerda e direita são representativas. Por outro lado, a (des)entrevista mostrou o perigo de uma (extrema) direita que avança sem vergonha de mostrar o que há de mais abjeto e, pior, sem argumento nenhum. Impera o discurso de ódio, o que é extremamente danoso a qualquer democracia.

Quando temos posições extremistas, mais uma vez, os discursos afloram. Essa sensação de ódio e intolerância, em que tem que ser “tudo ou nada” – veja o exemplo de Donald Trump com as crianças filhas de imigrantes –, que parecem inadmissíveis no século XXI, estão realmente acontecendo.

Apenas o diálogo e a compreensão do outro, sem confronto de argumentos rasos, é a saída para a construção de um país verdadeiramente democrático e justo.



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