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Editorial | Precisamos falar de isenção jornalística – e por que ela precisa acabar

Vivemos tempos estranhos. Para uns, sombrios, para outros, sórdidos. É impossível saber o que virá nos próximos dias – até mesmo horas. São tempos em que os poderes se conflitam, as pessoas se digladiam. Passamos do plano virtual para o real, com empurrões e tiros àqueles que nos parecem contrários. As atribuições dos poderes se engalfinham, quando deveriam ser complementares.

Botinas colocam seus pés para fora da caserna e pisam na jaca – naquela que lhes convém, é claro. Togados dão entrevistas de páginas de jornais inteiras, quando estes deveriam ater-se à lisura das leis e nada mais.

Sentenças anunciadas são comemoradas como gols – e é até injusta a comparação com o esporte. Condenações são aclamadas como limpeza tóxica, de um sistema que tem os pés na Idade Média. O acompanhamento cinematográfico rende momentos de emoção – em todos os lados – e asco: “manda esse lixo janela abaixo!”, bradam. Voltamos aos tempos espúrios da ditadura?

A exposição pública precisa de imagens, de signos: um governador é preso algemado, nas mãos e nos pés. “Chamem o carrasco!”, regozija-se a grita de quem pouco resta humanidade. Em outro canto, um quase nonagenário é preso, como se oferecesse algum risco letal. A letalidade desses citados já foi comprovada, o estrago foi feito. Jogá-los aos leões apenas alimentará uma sanha agourenta.

Tempos estranhos esses em que opinião tornou-se artefato de discórdia, e não de debate. Estranhos também são aqueles que exigem de determinadas instituições e profissões independência ou isenção. É o caso do jornalista.

Um áudio do âncora Chico Pinheiro tomou as redes. Nele, o apresentador do Bom Dia Brasil, na Rede Globo, faz diversas críticas ao modus operandi da Operação Lava Jato, ao Juiz Sérgio Moro, até mesmo (ainda que indiretamente) à própria emissora, quando cita que o “fetiche deles era ver Lula preso”. Também faz loas ao Ex-Presidente: “A coisa está louca. A direita não tem o que fazer, os ‘coxinhas’ estão perdidos”, diz Pinheiro.

Por óbvio, a fala vazada causou reações das mais variadas. A maior delas veio do “gerentão” do jornalismo global, Ali Kamel – o mesmo que publicou um livro com o insólito título Não Somos Racistas. Em um comunicado interno, Kamel afirma: “O maior patrimônio do jornalista é a isenção. Na vida privada, como cidadão, pode-se acreditar em qualquer tese, pode-se ter preferências partidárias, pode-se aderir a qualquer ideologia. Mas tudo isso deve ser posto de lado no trabalho jornalístico. É como agimos”.

Por outro lado, outra jornalista do grupo, Leilane Neubarth, exclamou – literalmente – em uma postagem no Twitter, quando do anúncio da negação do habeas corpus de Lula. “Acabou: 6 X 5 CONTRA a liberdade de Lula. Dia longo, exaustivo. Vence o Brasil!!!! E o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da Pátria nesse instante!!!!!”. Mantivemos as exclamações e maiúsculas para dar a dimensão da situação. O curioso é que o comunicado de Kamel surgiu depois do áudio de Pinheiro. Seria uma conjunção das duas falas dos empregados? Ou uma delas surtiu reação mais inflamada (talvez menos que as exclamações de Neubarth)?

O chefe do jornalismo global encarna algo que virou lugar comum no Brasil: jornalista deve ser isento. Caro leitor: se você acredita nessa falácia, meus pêsames.

A aura de isenção tomou de assalto as instituições de comunicação. São raros os cursos de jornalismo que estimulam o debate: no período acadêmico, formam alunos sob o modelo fordista de produção. Aprende-se a técnica, esquece-se do principal: o debate.

Acreditar em um jornalismo – ou jornalista – isento é como acreditar em Papai Noel. Essa falácia, urdida por quem já demonstrou interesses espúrios, ilude milhões de brasileiros. O único compromisso do jornalista é a verdade, e não a isenção (ou a imparcialidade).

A partir desse pressuposto, devemos considerar que não há verdade absoluta. Ou seja: o jornalista não é um deus supremo sabedor de todas as coisas. O jornalista é um humano qualquer, que tem suas visões e preferências e, de qualquer maneira, acaba por ilustrá-las em seus textos ou comentários. É inevitável.

A isenção e a imparcialidade criam zumbis desprovidos de opinião. Sem o pensamento crítico – de todos os lados do espectro ideológico, político, gastronômico, esportivo… –, estamos criando uma legião de pessoas desinformadas, que apenas comem aquilo que lhe dão à boca, sem degustar. A isenção, por fim, nos torna abertos a qualquer tipo de conteúdo. Um perigo.

Caro leitor: não acredite em quem diz que é isento. Ele está mentindo.



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