Editorial

Editorial | Sobre mochilas e Educação

A semana foi marcada por um fato importante no Brasil. Não, caro leitor: não vamos falar de julgamentos e duelos factoides. Vamos falar de algo mais importante: a Educação.

Na última terça-feira (9/5), imagens de crianças tomaram a internet. Mas não quaisquer crianças. São os pequenos estudantes de Jequié, cidade do interior da Bahia. As imagens chamaram a atenção por algo peculiar: mochilas entregues pela Prefeitura eram, praticamente, do tamanho das crianças – uma destas até colocada dentro do acessório (se não for uma montagem muito bem-feita, é claro).

As redes sociais, como de praxe, foram invadidas por memes, a “zoeira virtual”. Frases como “eu ri, mas o coração disse que estava errado”, montagens dos pequenos foram das várias, ou colocados em situações inimagináveis, como a piada em que diz que um “inquérito será aberto para apurar quem encolheu os moradores de Jequié”.

Piadas à parte, o caso revela muito mais que a mera falta de cuidado da Prefeitura local, ainda que com boas intenções. A educação deveria ser o principal problema a ser resolvido no Brasil – e, sobretudo, em nossos rincões.

Jequié é uma cidade do interior baiano que possui aproximadamente 162 mil habitantes. Distante 365 quilômetros da capital Salvador, o município está no amargo 4.978o lugar no Índice de Oportunidade da Educação Brasileira, com nota 3,2 – Brasil possui 5.500 cidades. As séries iniciais possuem a mesma nota, enquanto as séries finais a situação é mais calamitosa: nota 2,9. Outro dado assusta: o índice de proficiência em matemática dos alunos do 9o ano é de apenas 5%.

Esses números foram revelados pela Prefeitura de Jequié depois da polêmica das mochilas. A nota enviada pela administração municipal afirma que o número de alunos matriculados saltou de 13 mil para mais de 17 mil, com o objetivo de elevar os índices citados acima.

A Prefeitura afirmou que a distribuição das mochilas – que contém um kit com outros materiais escolares – não estava prevista para os alunos das creches, mas acabou optando por também distribuir a estes – ainda que com tamanhos desproporcionais. Foi investido cerca de R$ 300 mil no material. Por motivos óbvios, crianças de 3 a 5 anos não podem carregar mochilas.

Mas, o Brasil carrega nas costas a consequência de não combater o problema pela raiz. Governos anteriores alardeiam que fizeram uma “revolução” na educação do país, quando essa “revolução” não se basta em inflar números ou incluir mais estudantes em universidades federais. A verdadeira “revolução” não foi feita pelos governos petistas, geralmente ligados às demandas educacionais. A reforma na educação que o país precisa – a do atual governo é insignificante – não chegou. E, quanto mais tarda a chegar, mais o Brasil fica na vanguarda do atraso.

Que Jequié não se torne apenas um exemplo de piadas nas redes sociais. Que este caso sirva para reconhecer que só a educação é capaz de mudar estruturalmente o país.


Samir-Mohamed-TradDiretor do Grupo SP de Comunicação

Jornalista e Editor dos jornais SP e do portal de notícias SP Norte.

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