Entrevista: conheça Isis Lyon, a nova musa da Unidos de Vila Maria

0
280

A vontade de ajudar o próximo foi o que conectou a Unidos de Vila Maria à Isis Lyon, a nova musa da escola. “O alinhamento das nossas filosofias, história, engajamento social e amor pelo samba selaram essa união, que se estendeu até a avenida”, conta a modelo e empresária de 35 anos, que realiza trabalho social na ONG GR Together.

Nascida e criada na Zona Norte de São Paulo, Isis conta que sempre teve admiração pela escola, pois acompanhou de perto a evolução da Unidos de Vila Maria. “O espectro social, de apoio à comunidade, enche meus olhos, então sinto que estou onde sempre deveria estar”.

Além do Carnaval, ela também cultiva paixão pela medicina, ciência que despertou seu interesse desde cedo. “Sempre sonhei em ser médica, mas por limitações financeiras na época, com muito esforço, consegui ser técnica em enfermagem, depois graduada, e em seguida pós-graduada como enfermeira. Com a melhora nas condições financeiras, pude ingressar na faculdade de Medicina”, explica Isis, que está no quarto ano dos estudos.

Confira mais trechos da entrevista que ela concedeu com exclusividade ao SP Norte:

Como é virar musa de uma grande escola como a Vila Maria em um momento de adiamento do Carnaval por causa do coronavírus? É um momento de alegria e tristeza ao mesmo tempo?

Muito embora o coroamento do espetáculo seja apenas uma vez por ano, na verdade, o trabalho é constante e perpassa o ano todo. E não se limita ao evento em si, mas a todo apoio às pessoas vulneráveis das comunidades que a Escola alcança, desde uma simples cesta básica, a escola de instrumentos e até mesmo serviços médicos.

Ser musa da Vila Maria é uma alegria por si em qualquer situação, e, especialmente nesta, é mais gratificante ainda, pelas necessidades e carências serem ainda maiores, quando mais pessoas estão contando conosco.

Como é se preparar para um Carnaval que ninguém tem certeza quando vai acontecer?

O Carnaval ocorrerá de qualquer maneira. É a expressão das nossas raízes, para muitos, e um momento de libertação para outros, e de reviver de memórias, da nossa história, aos demais. Se não ocorrer hoje, ocorrerá amanhã, mais tardar, depois de amanhã, mas ocorrerá.

Como você vê o papel da musa dentro da escola e da comunidade?

A musa precisa compreender e reconhecer sua iconografia dentro da escola. As pessoas a tomam como referência em diversos aspectos, muito além da estética em si. Portanto, na forma de exemplo, uma postura comprometida, vibrante, de amor e carinho.

Você gosta mais da medicina, de ser modelo ou do carnaval?

Impossível uma pergunta mais difícil do que essa. Reflito eu que meu gostar por cada uma oscila em sincronia com os altos e baixos naturais delas. Talvez, sopesando mais sobre o tema, eu sinta que ame mais ser modelo quando estou modelando, mais medicina quando me imiscuindo nos meandros dos atos médicos, e o carnaval quando participando ou me preparando para ele.

Existe mais racismo no Brasil ou no exterior?

Pelas minhas desventuras no exterior, não diria que o Brasil se situa entre os mais racistas não, muito embora acredite que esteja muito aquém a grande parte dos países da Europa e Oceania.  Em alguns deles, passei diversos dias ou semanas sem um único exemplo sequer de diferenciação no tratamento. O racismo parece ser um problema incrustado e intricado nas culturas em diferentes doses e em relação a diferentes etnias.

Movimentos como o “vidas negras importam”, que tem ganhado força principalmente no EUA, após a morte de Geroge Floyd, pode trazer mudanças também para o Brasil?

Acredito que o combate ao racismo se desenvolve de geração pra geração. É difícil acreditar que alguém que cresceu num ambiente tomado de racismo consiga efetiva e constantemente comedir. Porém, se não ensinando e não demonstrando aos filhos a prática isso tende a perder forças.

Dito isso, da mesma forma que políticas intensivas e quiçá punitivas, como do uso do cinto de segurança, que mudaram completamente o hábito dos motoristas de uma geração pra outra, do mesmo modo, duras ações de combate ao racismo produzirão uma sociedade não mais tão pautada assim quanto a isso.

Você busca servir de inspiração para outras mulheres negras?

Absolutamente. Estabelecer e referendar referências pode ser o divisor de águas aos jovens entre a esperança e o desânimo. Digo mais, toda pessoa com algum grau de sucesso em algum aspecto deve reconhecer que pode ser exemplo pra muitos e considerar em seus atos essa responsabilidade em todo o porvir.