Editorial

Editorial | Eu quero um país que não está no retrato

Uns dizem que é um novo começo. Outros, o fim. Mais outros afirmam que o é fim do começo. Ou, o começo do fim. Está eleito o 42º Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro (PSL).

Em uma campanha tomada por discursos em que as propostas ficaram em segundo plano, dando lugar a notícias falsas, declarações que enrubesceriam muitos ouvintes e toda a sorte de comentários. O novo chefe do executivo a partir de 1º de janeiro de 2019 terá que lidar com duas frentes: a alta confiança que seus eleitores lhe depositaram (por motivos diversos; seja a segurança, seja para “varrer a ameaça socialista e a corrupção” do país), e conter-se ao máximo para não virar alvo de pedras da oposição. Antes lançador de pedras, Bolsonaro e a nova composição do legislativo (que lhe dará relativo suporte), serão vidraça.

E o vidro já começa a dar sinais de que precisa ser resistente. Com as notícias das nomeações de ministros e mudanças (como a fusão de pastas), algumas manifestações de eleitores (tanto os favoráveis quanto os contrários) dão conta que Bolsonaro terá que lidar com críticas – não muito afeito a elas, como fez na entrevista ao Jornal Nacional (Globo), já eleito, quando disse que “por si só, esse jornal se acabou”, em relação à Folha de S. Paulo. Uma reação à investigação que o jornal fez sobre o uso de notícias falsas enviadas via WhatsApp.

Mais ainda, ameaçou veículos ao dizer que se mantivessem esse tipo de comportamento, não receberiam verbas públicas do governo. Chega a ser irônico àqueles que afirmavam que o Partido dos Trabalhadores “tomaria conta da mídia”, ou “censuraria”. Bolsonaro, muito mais próximo daquele em campanha do que aquele em seu primeiro discurso como presidente, com direito até a uma roda de oração – alô, Estado laico! –. dá mostras que não vai ser light.

Mas terá que ser. É preciso lembrar que o eleito fora escolhido por 57,6 milhões do total de eleitores. Outros 87,8 milhões optaram por outro candidato, não escolheram nenhum ou se ausentaram. Não será, de forma alguma, o governo de uma maioria absoluta.

A famigerada “reconstrução do Brasil” não se dará com um governo mantido a toque de caixa (ou de recolher, como muitos dos eleitores incautos de Bolsonaro propagaram, contra a “petralhada”, ou as ofensas a negros, homossexuais e nordestinos). O mito (e não este inventado por eleitores fanáticos, os mesmos que criticavam a “louvação” a um presidiário e ex-presidente) da democracia racial no Brasil ou do brasileiro cordial caiu por terra com este pleito. Mito criado por autores que estão na galeria de intocáveis, como Sergio Buarque (do livro Raízes do Brasil) e Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala).

Como reconstruir um país que nem construído é? Um país que foi um dos últimos a abolir a escravidão, jogando seres humanos à própria sorte? Uma nação que ora exalta o juiz Joaquim Barbosa, contra a corrupção (a que lhe convém) e, anos depois, o ofende com declarações racistas apenas pela declaração de voto? Um país entregue, desde os primórdios, a uma elite predadora – e não estamos falando de você que ganha um salário razoável – e privilegiada? Um país que perpetua diferenças e contradições?

A luta – de todos nós – será árdua. A construção de um país não depende de um mito ou salvador da pátria. Pois é no avesso do mesmo lugar que a gente se encontra. O retrato emoldurado está longe de representar o Brasil em sua totalidade. É hora de contar a história que a história não conta.



Topo