Fab Lab Livre SP: onde se aprende a fabricar “quase tudo”

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Esculturas, robôs, peças para os mais variados fins e tudo o mais que a imaginação permitir podem ser construídos por qualquer pessoa nos Fab Labs da Prefeitura de São Paulo. Gerido pela Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, o programa oferece à cidade a maior rede pública do mundo de laboratórios desse tipo, com 13 unidades onde se pode desenvolver ideias e projetos com tecnologia de ponta, gratuitamente.

Apesar da suspensão dos atendimentos e usos presenciais por conta da pandemia de Covid-19, o público continua tendo acesso ao aprendizado por meio de lives e tutoriais nas redes sociais do Fab Lab Livre SP. Entre no link  para acessar os endereços: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/inovacao/noticias/?p=264338),

“A fabricação digital tem um grande potencial para transformar vidas e projetos. Ampliar as conexões entre os laboratórios, população e instituições no entorno é fundamental para criar soluções e talentos”, diz o secretário de Inovação e Tecnologia, Juan Quirós.  “Ainda que estejamos num período de restrições, encorajamos a participação de atividades à distância para divulgar a fabricação digital e a cultura maker”.

Nas atividades presenciais, durante as oficinas e cursos, os alunos têm acesso a ferramentas como cortadoras de vinil, laser, impressoras 3D (impressão de objetos) e fresadoras (para cortar ou desbastar madeira, plásticos e isopor), entre outros equipamentos. Lá, a filosofia é “faça você mesmo”.

 

Inventora

O tema foi levado a sério por Amélia Souza Pereira, de 45 anos. Moradora do Jardim Romano, na Zona Leste, a dona de casa sofreu um acidente em 2014, que a fez perder o movimento de um dos braços, e passou dois anos enfrentando uma depressão. A psicóloga com quem fazia acompanhamento recomendou que voltasse a estudar.

As poucas vezes em que Amélia saía de casa eram para ir ao médico. Em uma dessas ocasiões, encontrou um amigo que a convidou para conhecer o FAB LAB do Céu Três Pontes, na mesma região.

“Quando cheguei lá vi aquelas coisas de robótica. Eu estava com 38 anos, pensei que eram só para jovenzinhos. Mas logo depois percebi que era muito fácil aprender. Fiz o curso de design em 3D e, no dia seguinte, criei um projeto”, recorda-se.

 

Boleira

A primeira ‘invenção’ de Amélia foi uma peça que ela batizou como “boleira”, para facilitar seu dia a dia no preparo de tortas e bolos para consumo próprio. No entanto, a invenção fez sucesso: tornou-se solução para pessoas sem total mobilidade manual, assim como ela.

“Antes tinha que virar a vasilha com a massa sobre a assadeira e esperar que ela caísse. Perdia muito tempo e ficava desanimada”, afirma.

O projeto de Amélia, que consiste em duas hastes que seguram a tigela para que a massa seja transferida para a forma, foi apresentado em um evento da área na China, em 2016. Ela também deu palestras e participou das edições de 2017 e 2018 da Campus Party nos temas de tecnologia assistiva “Comecei a aprender e a gostar. Hoje, se vejo um problema, penso logo em uma solução”, enfatiza Amélia.

A nova inventora fez todos os cursos disponíveis no Fab Lab, um total de 12, e desenvolveu outros projetos. Entre eles, uma tipoia que dispensa o apoio cervical, uma tábua para cortar que segura alimentos de tamanhos variados, palmilhas de silicone e também um segurador de panela. Esta última peça foi criada especialmente para uma amiga, que sofreu um AVC.

“Minha amiga fazia coxinhas para vender e perdeu o movimento do braço esquerdo”, diz Amélia.

Todos os produtos produzidos por ela são de patente aberta. Podem ser usados por quem quiser.

“Consegui ajudar várias pessoas com o que aprendi no Fab Lab. É um projeto de amor. Tenho autonomia e ajudei os outros a terem, também. Nunca pensei que pudesse ir tão longe”, afirma a dona de casa, que sonha montar uma ONG para pessoas com deficiências.

 

Brinquedo em 3D

Desenvolver  uma peça voltada para crianças com deficiência visual e de baixa visão foi o projeto criado Giulia Yousue e Vitor Akamine. Tudo começou em 2016 quando Giulia, na época estudante do curso universitário de Design, precisou formular um projeto para a faculdade.

Depois de finalizar o trabalho acadêmico, ela quis levar sua iniciativa adiante e trocou ideias com Vítor. Juntos, foram até o FAB LAB do Centro Cultural São Paulo, onde aprimoraram o projeto: um brinquedo que ganhou o nome de Togotoy.

“O Fab Lab é uma forma muito democrática de trazer tecnologia e capacidade paras as pessoas criarem o que quiserem”, diz Akamine, que está finalizando o curso de Engenharia Mecatrônica.

 

Como é o Togotoy

Togo é uma palavra japonesa que significa integração. E toy, inglesa, que quer dizer brinquedo. A ideia da dupla, lembra Giulia, era criar uma peça que promovesse a inclusão entre crianças de quatro a dez anos com deficiência visual, baixa visão e também entre elas e as videntes (que enxergam normalmente).

A criação em 3D é formada por blocos modulares, que lembram peças de plástico para brincadeiras de construção. Têm formato retangular e se conectam por meio de ajustes simples. Neles há palavras escritas no alfabeto Braille, transcrições no alfabeto usual e ícones, com desenhos que simbolizam as palavras, em alto-relevo.

Saiba como ele pode ser montado clicando aqui

“Quando as crianças tateiam a imagem, conseguem identificar a forma do objeto. Esses elementos permitem que brinquem juntas criando suas próprias histórias, por meio da imaginação”, explica Giulia.

Graças à criação do Togotoy, Giulia e Vítor foram convidados para apresentar seu projeto no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

“Fomos premiados como o segundo melhor projeto na categoria Estudantes. Foi importante para evidenciar o valor da inclusão”, lembra Akamine.

 

Criação aprovada

A peça idealizada por Giulia e Vítor passou pela aprovação da estudante Mell Rodrigues, de 17 anos, que cursa o terceiro ano do Ensino Médio de um colégio do bairro do Ipiranga, na Zona Sul.

A jovem tem deficiência visual e ficou muito satisfeita com o Togotoy assim que teve a oportunidade de manuseá-lo, aos 14 anos.

“Achei a iniciativa muito interessante. Foi um trabalho bem-feito. Faz com que as crianças conheçam as letras e a forma dos objetos”, avalia a estudante, que pretende ser fisioterapeuta para ajudar as pessoas.

O projeto já foi utilizado na biblioteca da Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos Professor Mário Pereira Bicudo, no bairro da Cachoeirinha, Zona Norte. O brinquedo em 3D pode ser incluído nas atividades de brinquedotecas e escolas.