Carnaval 2018

Império de Casa Verde capta o espírito do tempo

O carnaval e, sobretudo, o desfile das escolas de samba, é uma manifestação genuinamente cultural brasileira. De maneira que é comum a passarela ser invadida por enredos que retratam temas do nosso cotidiano, descritos em verso, prosa, fantasias e alegorias. Ainda que cultural, o desfile das escolas de samba também é o retrato – carnavalizado – de nossa sociedade, em alguns aspectos.

Nesse contexto, podemos rememorar desfiles que criticavam certos setores, como o clássico Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia, da carioca Beija-Flor de 1989. Em Sampa, podemos citar exemplos como Não Calem a Minha Voz, da Acadêmicos do Tucuruvi, em 2003, sobre a imprensa; e o polêmico Não Tem Desculpa, da Águia de Ouro, em 2006, sobre a pedofilia.

Os enredos críticos tornaram-se rarefeitos, mas voltaram com força total no carnaval 2018, sobretudo para os cariocas. Afetadas duramente pelo corte de verba da Prefeitura de Marcelo Crivella – ligado à Igreja Universal –, as escolas de samba apostam em enredos críticos, como a Mangueira. A Beija-Flor vai retratar uma espécie de “Frankstein brasileiro”; a Paraíso do Tuiuti vai questionar se a escravidão realmente acabou.

Em São Paulo, a situação é outra: há mais incentivos da Prefeitura, a organização do carnaval está como nunca vista antes, e os enredos estão exageradamente envoltos em homenagens. Justas, mas em grande número.

Ecos da Revolução

Ficou a cargo da Império de Casa Verde, quarta colocada do carnaval 2017, capturar o zeitgeist: termo alemão para designar “espírito do tempo”.

O enredo O Povo: a Nobreza Real bebe na fonte de um clássico universal: o livro Os Miseráveis, do francês Victor Hugo. Ao retratar as mazelas de uma sociedade de regalias e pobreza, a Império leva à avenida uma crítica à própria situação atual brasileira, na política e na sociedade.

Ao mergulhar na obra francesa, o enredo imperiano fará alusões àquela sociedade, envolta em revoluções e ideais. Além do livro, a escola também trará referências brasucas, como a clássica novela Que Rei Sou Eu?, exibida na Globo em 1989 (foto ao lado).

Banquetes luxuosos em meio à miséria do povo serão retratados no desfile, marcado por personagens como reis, rainhas, padres e, claro, os pobres. Em meio à ganância e ao poder, começam a florescer os ideais revolucionários que levaram à queda da Bastilha – entenda “Bastilha” não somente como a prisão francesa, mas como nossos desafios diários: fome, miséria, caos social e político.

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Nascem os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, declarando o povo – camponeses, trabalhadores, escravos – livre do sistema corrupto e injusto. Em meio à folia, tornam-se dignos da felicidade e da cidadania conquistadas.

Além da já marcante característica do carnavalesco Jorge Freitas – campeão logo na estreia na escola, em 2016 – com alegorias e fantasias impecáveis, a Império tem outra força: o entrosamento do samba-enredo na voz igualmente marcante de Carlos Júnior.

O primeiro ensaio técnico, realizado no último sábado (6/1), já deu mostras de que a escola vem firme para a conquista de mais um título. A bateria, considerada uma das melhores do país, já está pronta para dar “tiros de canhão” e fazer uma “revolução”.

O destaque do samba fica por conta de passagens que fazem alusão à revolução francesa (“Nas esquinas e tabernas, ecoa o grito da revolução”) e ao musical baseado no livro, mostrado nos palcos e no cinema (“Sonhei um sonho, onde há coragem pra mudar o mundo […] Um sonho sonhei, em que a lei era dignidade”).

Na selva de poder, em meio às esquinas da Casa Verde, a Império derruba as bastilhas para coroar o povo, distinto de real nobreza. Em nossa alma, a esperança continua.

Ficha técnica
Enredo: O Povo: a Nobreza Real
Ordem de desfile: segunda escola do sábado (10/2)
Quadra: Av. Eng. Caetano Álvares, 2.042
Ensaios de quadra: sábado, a partir das 22h. Entrada gratuita
Ensaios técnicos: 18/1 (quinta-feira), às 21h; 28/1 (domingo), às 21h45

Samba-enredo
Intérprete: Carlos Júnior
Compositores: Jairo Roizen, Thiago Sukata, Godoi, Luciano Godoi, Claudio Mattos, Tavares, André Valêncio, Rafael Tubino, William Lima, Meiners e Victor Alves

 

Quem sou eu na “selva de poder”?
Mais um “bobo da corte” a padecer
Sem desfrutar da riqueza
Que a realeza tem pra oferecer
No “Reino das Regalias”
A poesia é nossa arma pra lutar
Contra o carrasco da injustiça
Na monarquia impera a corrupção
E nos banquetes, toda a fidalguia
Desperta a insatisfação

É chegado o momento, surge um movimento
A batalha acabou de começar
Na alma da gente a esperança continua
Vem pra rua

Nas esquinas e tabernas
Ecoa o grito da revolução
Na luz dos ideais de liberdade
O “miserável” se declara cidadão
“Sonhei um sonho”
Onde há coragem pra mudar o mundo
A igualdade segue junto derrubando as “Bastilhas”
Um “sonho sonhei” em que a lei era dignidade
Todo camponês se torna rei
Nessa folia é realidade

Meu Império é amor, tem a força pra vencer
Tigre guerreiro não cansa
Vai à luta de novo
Teu sangue azul é a cara do povo



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