Jaçanã: do cinema a Adoniran, bairro comemora 145 anos

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O bairro do Jaçanã celebra 145 anos de história no próximo dia 14 de setembro. O local, que ficou imortalizado na voz do mais paulistano dos compositores, Adoniran Barbosa, guarda um patrimônio cultural brasileiro: o cinema

1109_jacana adoniran 1O “trem das onze” da música de Adoniran Barbosa funcionou por mais de 50 anos e ligava o Centro de São Paulo a Guarulhos. Tamanduateí era a estação de partida, no Centro. Depois, na Estação Areal, havia um ramal que ligava a região até Guarulhos, por mais seis estações: Carandiru, Vila Pauliceia, Parada Inglesa, Tucuruvi, Vila Mazzei e, finalmente, Jaçanã, próximo à divisa com Guarulhos. A linha ainda contava com mais seis paradas até o final, totalizando um trajeto de 21 quilômetros.
Adoniran, cantor, compositor e também ator, não morava no Jaçanã, mas descia no bairro para ir à Companhia Cinematografica Maristela, perto da estação, onde gravava seus filmes.

1109_jacana estacaoRegistros mostram que o trem não saía exatamente às 11h. O último trem saía 10h50 da Vila Mazzei, aos finais de semana. Portanto, naquela época, não chegaria às 11h. A estação era localizada onde hoje é atualmente a Rua Benjamin Pereira, onde também está o Museu da Memória do Jaçanã, no número 1.021. A estação foi demolida em 1966, e todo o ramal foi desativado um ano antes.

Mas, para além do famoso trem do Jaçanã, o bairro também abrigou os primeiros estúdios de cinema do Brasil: a Companhia Cinematográfica Maristela.

A produtora de filmes surgiu em 1950 pelas mãos de Mário Audrá Junior, filho de uma rica família paulistana da indústria têxtil. Marinho, como era conhecido, tinha o sonho de se tornar produtor de cinema em uma época em que o neorrealismo italiano encantava plateias em todo o mundo.

À época, São Paulo vivia a pujança industrial, além de ser a grande cidade da América Latina já naquela época, no período pós-guerra. Para ajudar Mário, Ruggero Jacobi, Carlos Alberto Porto e Mario Civelli colocaram em prática a Companhia Cinematográfica Maristela.

No entanto, a história do cinema mostra que a Maristela ficou conhecida como a “prima menor” da Vera Cruz, a primeira grande companhia nacional que seguia o estilo Hollywoodiano de produzir filmes. Nem por isso a Maristela teve sua importância diminuída: a produção realizada na companhia é a base da história do cinema brasileiro, onde atuaram centenas de atores e técnicos. Pelos estúdios localizados no Jaçanã, passaram nomes como Procópio Ferreira, Tonia Carrero e Odete Lara.

1109_jacana adoniran 2A Maristela teve apenas oito anos de história, com seu acervo retomado em novos projetos e retrospectivas, com filmes restaurados e novas cópias.

Entre os filmes produzidos pela Companhia, estão Presença de Anita (em 1950, baseado no livro de Mário Donato, que também deu origem à série homônima da Rede Globo), Meu Destino é Pecar (em 1951, primeira adaptação de Nelson Rodrigues para o cinema), e a chanchada paulista Pensão de Dona Stela, onde Adoniran Barbosa está presente com suas composições e também como ator.