Editorial

Janot alimenta sentimento de vingança contra instituições

Acompanhar a política brasileira vem sendo a melhor série nos últimos anos. O novo episódio foi a entrevista do ex-procurador-geral da republica Rodrigo Janot declarando a intenção de matar seu colega de Judiciário, o ministro do STF, Gilmar Mendes. O depoimento fica mais estranho quando o ex-procurador narra do inicio ao fim seu plano de assassinato, impendido, segundo ele, pela “mão de Deus”.

Independente se a afirmação é verídica ou não – até porque não sabemos se essa história só serve para polemizar e alavancar as vendas de seu livro autobiográfico -, Janotescolheu um dos piores momentos da história brasileira para mostrar sua “sede de sangue”, embora o comportamento de Gilmar Mendes, em muitos momentos, provoque revolta.

Com a maior parte da população refém da violência diária, tanto por parte do tráfico como por parte do Estado, aliado aos casos de corrupções e a polarização ideológica de partidos A e B, a crença pelas instituições vem se deteriorando, e a única coisa que mantém ainda a democracia “em pé” são alguns exemplos institucionais e a boa vontade dos brasileiros.

No entanto, quando observamos que nem um membro do alto escalação da Justiça consegue ter fé no sistema democrático, querendo apelar para a mais covarde forma da violência, qual perspectiva que um cidadão comum vai ter? Na mesma pergunta, se nem um procurador-geral da republica quer respeitar a Constituição, porque os cidadãos, vítimas de violência e medo diariamente, têm que respeitar?

Semelhante à mentalidade do ex-procurador, determinadas pessoas e grupos se acharam no direito de “lavar sua honra com sangue”, com isso reproduziu momentos trágicos, como são os casos dos linchamentos públicos e as práticas de tortura em supermercados.

Mas engana-se que esse problema repercute apenas na população em geral. A execução da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, os tiros contra a caravana do ex-presidente Lula e a facada contra Bolsonaro, são símbolos da falência da Justiça e das instituições brasileiras, e quando não existe essa crença, o que resta é a barbárie.

O momento agora é de fortalecer as instituições. O país ainda está em uma crise, mas caminha para sair dela. Acreditar no jogo político e no sistema democrático é fundamental para, novamente, encontrarmos a luz no fim do túnel.



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