Histórias

Luz, câmera e ação: Jaçanã e Vila Guilherme nos primórdios do cinema e da TV

É comum que, quando um bairro faz aniversário, seja relembrada sua história. Quase todos têm origens indígenas, cujas terras foram tomadas por investidores, ou religiosas – dos mais antigos, como a quatrocentona Freguesia do Ó, até os mais jovens, como Vila Guilherme e Jaçanã. Estes fizeram aniversário na mesma semana: o primeiro completou 105 anos no dia 12, enquanto o segundo fez 147 em 14 de setembro.

Já centenários, os dois aniversariantes da Zona Norte foram oficializados com pouca diferença: apenas 42 anos. Pode parecer pouco, mas, à época, essas quatro décadas representam o rápido crescimento da capital.

Jaçanã surgiu ainda no embalo da Independência: era o Brasil recém-transformado em República. Já a Vila Guilherme surgiu no século seguinte, em 1912: era a São Paulo tornando-se metrópole, quando já era preciso expandir as fronteiras para além do Centro da cidade.

Enquanto um tem seu nome originado nas vermelhas aves jaçanã que sobrevoavam a região – antes era Uroguapira, originador de locais do bairro, como o Clube Guapira e a avenida de mesmo nome –, o bairro mais novo tem origem no nome do dono daquelas terras, Guilherme Praun da Silva, que comprou os lotes de uma personalidade conhecida até hoje: Dona Joaquina Ramalho Pinto de Castro.

São histórias parecidas com as várias existentes pela capital. Porém, muitas vezes esquece-se da importância desses dois bairros para a cultura e o desenvolvimento da comunicação em todo o Brasil. E se você pensou que Jaçanã é “Trem das Onze” – salve, Adoniran Barbosa! – e Vila Guilherme é o histórico Casarão, está enganado.

Jaçanã é cinema

Quem acompanha o SP Norte ou conhece a história do Jaçanã a fundo, já viu: o bairro abrigou os primeiros estúdios de cinema do Brasil: a Companhia Cinematográfica Maristela, na década de 1950.

Era a época das experiências cinematográficas em todo o mundo, sobretudo na Europa. Por lá, reinava o neorrealismo italiano, enquanto por aqui, Mário Audrá Junior sonhava em se tornar produtor. E conseguiu. A produtora é responsável por adaptações de obras clássicas, como Presença de Anita e a primeira criação em filme do escritor Nelson Rodrigues, Meu Destino É Pecar.

A história acabou colocando a Maristela abaixo de outra grande companhia de cinema brasileira – e que muitos acreditam ser a primeira, Vera Cruz. Mas a importância do grupo de cinema no Jaçanã forjou as bases do cinema nacional, de roteiristas a técnicos, de diretores a atores, como Procópio Ferreira, Tônia Carrero, Odete Lara e o próprio Adoniran Barbosa.

Vila Guilherme é TV

Apenas dez anos separam o cinema do boom da televisão no Brasil. Naquela mesma década de 1950, a TV emitia seus primeiros sinais, por meio da já conhecida história de Assis Chateaubriand. Dez anos depois da TV Tupi, até então dominante, era preciso mais concorrência: em 9 de julho de 1960 entrava no ar a TV Excelsior. Mas só em 1967 seriam inaugurados os estúdios localizados na Vila Guilherme. A Rua Santa Veloso, 575, abrigava a mais nova fábrica de entretenimento do Brasil.

A Excelsior foi pioneira a transmitir em cores. Mas, como usava o padrão americano, não “decolou”. No entanto, por mais de 20 anos, os estúdios da Vila Guilherme, pertencentes à época ao Grupo Folha, foram considerados os maiores do país e, depois de seis meses de inaugurado, o então canal 9 tornou-se líder de audiência em São Paulo. Por lá – tanto nos estúdios paulistas quanto nos cariocas – passaram nomes do calibre de Bibi Ferreira e Moacyr Franco, além do início da trupe d’Os Trapalhões, com Didi e Dedé.

Mas, a história é negativamente caprichosa: dois incêndios deram início e o fim quase definitivo à emissora, conforme relata Elmo Francfort, um dos principais nomes da memória televisiva e sabedor de histórias por intermédio de familiares que estavam nesse novo universo.

O primeiro incêndio não causou danos, mas o segundo – apenas dois meses antes de a emissora sair do ar – colocou fim à curta trajetória da Excelsior, em 1970, que também sofreu nas mãos da intervenção militar: programas censurados com direito a um irônico recado aos militares. Os mascotes da emissora apareciam vendados nos trechos retirados pelo regime militar.

Pouco tempo depois, outro nome conhecido da Zona Norte iniciava sua trajetória na região. Muito antes dos estúdios da Av. Ataliba Leonel, Silvio Santos e sua TVS alugou os antigos estúdios da Excelsior. Antes, o “rei dos domingos” alugava auditórios de outras emissoras, como da TV Globo. Mas os estúdios da Vila Guilherme foram o embrião do que viria a ser o atual SBT.

Outro incêndio, em 1972, acometeu os estúdios. Arquivos foram perdidos e, em uma emergência, Silvio chegou a gravar seu programa em uma casa vizinha ao complexo. A Vila Guilherme abrigou várias atrações, como o Programa Livre, Hebe, Jô Onze e Meia e novelas.

Enchentes que atingiam o local também trazem histórias curiosas, como um bote inflável usado pela equipe de jornalismo – como o inesquecível e embrião do “jornalismo mundo-cão” Aqui Agora. Afinal, a notícia não podia parar.

Depois de muitos anos de abandono e depredação (foto ao lado), os antigos estúdios deram lugar a uma igreja: o prédio é a sede da evangélica Bíblica da Paz.

fotos: Reprodução/Cia. Maristela, Divulgação/SBT (Silvio Santos), O Baú do Silvio (estúdios, foto aérea), Elmo Francfort (estúdios abandonados)

Luz, câmera e ação: Jaçanã e Vila Guilherme nos primórdios do cinema e da TV


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