“O papel das nossas ruas é restaurar o coração e a alma da nossa cidade”

0
1757

Qual é a cidade que queremos? Qual é a Zona Norte ideal? Como nossas ruas devem ser distribuídas? Mais pedestres e menos carros? Essas são algumas das questões que envolvem algo essencial no nosso dia a dia: a mobilidade urbana.

também publicado no Medium

Para responder?—?ou, pelo menos, dar um início?—?a essas questões, o auditório da Prefeitura Regional Santana/Tucuruvi recebeu na última quinta-feira (24/8) o encontro (Re)pensando a rua em Santana.

Promovido pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil) e pela Bloomberg Philanthropies, o evento também é integrante da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, que tem como conceito ser “em projeto”. Ou seja, itinerante, em movimento e em construção, com trabalhos colaborativos que serão finalizados, efetivamente, na exposição.

“A gente entende que nossas cidades, por 50 anos, construímos para os carros. Importamos um modelo de desenvolvimento muito focado no automóvel, e os outros meios e os pedestres perderam espaços. E as cidades foram construídas sem carros. A gente trabalha hoje para reequilibrar esses espaços”, iniciou Danielle Hope, Gerente de Transportes Ativos do ITDP.

A preferência pelos carros culminou em graves problemas de segurança viária: entre 2010 e 2014, aproximadamente 160 mil foram feridos em São Paulo por conta de acidentes, e quase 6 mil mortes no mesmo período. Além dessas graves consequências, o uso ostensivo de autos causa congestionamento, sedentarismo, obesidade: um círculo vicioso, também alimentado pela poluição e a insegurança.

A proposta do ITDP Brasil é fazer intervenções urbanas temporárias, que visa melhorar os espaços públicos (ruas, calçadas, praças, canteiros, etc.) de maneira rápida e econômica, com materiais simples e baratos para que sejam feitos os ajustes.

Alguns acabam sendo aceitos pelas cidades, como no Rio de Janeiro: cones foram implantados em uma via para melhor distribuir o tráfego. Outro exemplo vem da Zona Leste, em São Miguel Paulista. No bairro, esquinas foram redesenhadas, retomando os espaços para os pedestres.

A escolha de Santana para mais uma intervenção se dá por não ser uma área da região central, “porque essas já têm muito investimento”, afirmou Danielle. O ITDP analisou a região da Av. Cruzeiro do Sul, e constatou que a área teve 281 atropelamentos e 521 incidentes na via e nas adjacentes. Os acidentes estão, sobretudo, centrados em cruzamentos.

Visão zero: responsabilidade do sistema

No mundo, a situação não é muito alentadora. De acordo com Diogo Lemos, Analista De Segurança Viária da WRI Brasil, que também atua no campo de soluções sustentáveis para as cidades, a projeção é que em 2050 tenham 2,5 bilhões de carros em todo o mundo. Outro dado alarmante indica que 90% dos acidentes são causados em países de média e baixa renda. O Brasil, por óbvio, incluído.

Os mais jovens são os mais afetados, principalmente aqueles que vivem em áreas de risco, sob condições econômicas desfavoráveis. No Brasil, são 116 mortes por dia causados por conta do trânsito desigual. Isso se reflete nos cofres públicos: em 2012, foram gastos R$ 39 bilhões com todos os custos envolvidos.

De acordo com Lemos, a WRI Brasil está começando a trabalhar com uma “visão zero”. O foco é “mortos e gravemente feridos em acidentes de transito são inaceitáveis: a gente não pode se basear na aceitação do erro humano, [já que] acidentes podem ser evitados. Na ‘visão zero’, a responsabilidade primária é do sistema, dos planejadores, e não do indivíduo, como normalmente ocorre”, afirmou Lemos.

Outro problema enfrentado no trânsito brasileiro vem de fora: sua legislação. De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, os índices de velocidade não são regulamentados, como dirigir alcoolizado. O texto apenas recomenda velocidades: em vias arteriais, máximo de 60 km/h; vias coletoras podem ter até 40 km/h; e expressas, até 80 km/h.

A questão é determinante, já que a maioria dos acidentes poderiam ser evitados se as velocidades fossem reduzidas. Uma pessoa tem chances maiores de sobreviver depois de um impacto de até 50 km/h. Acima disso, o risco de morte aumenta consideravelmente. Por esse motivo, a Organização Mundial de Saúde recomenda 50 km/h nas vias arteriais.

Como vivemos sempre com pressa, e há o culto à velocidade, os indivíduos não tem a verdadeira noção do quão grave é um acidente em alta velocidade. Lemos exemplificou com a queda de um edifício: o impacto de 30 km/h é equivalente a uma queda do 2º andar. Já o impacto de 60 km/h corresponde a nove andares.

Para o analista, o “encorajamento” das pessoas em apoiar a redução de velocidade está na alteração do desenho das ruas, na interação das pessoas com a infraestrutura, e tornar “difícil” aos motoristas desenvolverem altas velocidades. Essas indicações estão disponíveis no manual O Desenho de Cidades Seguras, publicado pela WRI Brasil.

Rua: movimentação e participação da comunidade

Para Ankita Chachra, Coordenadora de Projetos, Iniciativa Global de Desenho de Cidades da National Association of City Transportation Officials (NACTO), “o papel das nossas ruas é restaurar o coração e a alma da nossa cidade, para estar, ficar, tomar um café, para participar das ruas de uma maneira mais intensa. A rua não tem só a movimentação das pessoas, mas a participação da comunidade. A gente conseguiria fazer tudo isso sem colocar nossa vida em risco”.

A especialista mostrou vários exemplos de intervenções urbanas que priorizam o pedestre, e oferecem maior segurança a todos. Travessias elevadas, meio fio estendido, lombadas e minirrotatórias são opções que ajudam o melhor caminhar, obrigando o motorista a reduzir a velocidade nesses pontos.

“Nossas ruas são a maior rede de espaços públicos que temos, temos que gerenciar essa propriedade de uma maneira melhor. Você pode ser a mudança em nossas ruas, repensem sua cidade e lutem para colocar não mais o motorista em primeiro lugar, que é o que sempre acontece, e sermos mais ‘egoístas’: o pedestre em primeiro lugar”, finalizou Chachra.

Depois, alunos do Ensino Médio do Colégio Santana, estudantes da turma de paisagismo da ETEC das Artes (no Parque da Juventude) e universitários da área?—?convidados pela Prefeitura Regional?—?fizeram intervenções em cartazes espalhados pelo auditório, indicando perguntas como “qual é o seu lugar favorito para caminhar”, “se pudesse, onde proporia as seguintes alterações”, “em quais pontos você se sente mais/menos seguro”.

A atividade segue a linha “em construção” da 11ª Bienal de Arquitetura, e continuará em setembro. No dia 16, um sábado, serão realizadas intervenções urbanas nos cruzamentos e proximidades das ruas Leite de Morais, Salete, Dr. Cesar e Voluntários da Pátria. A região é conhecida por ter grande fluxo de pedestres, já que está próxima ao terminal de ônibus e metrô Santana.

fotos: Bruno Viterbo