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Editorial | Que seja sempre a nossa voz

Em 2017, o ranking “Democracy Index”, da revista The Economist, classificou o Brasil como uma “democracia falha”, atribuindo notas aos países. Índices de 6 a 8 entram nesse bolo “falho”, e nós temos uma nota de 6,86. É um tipo de democracia em que, apesar dos problemas, eleições são livres e as liberdades, garantidas. Entre os problemas, negação ou baixa participação política e falhas de governabilidade.

A nota brasileira não chega aos 9,87 da plena democracia norueguesa, e nem aos 1,08 da ditadura norte-coreana – notas de 0 a 4 denotam regimes autoritários.

Se olhamos com descrédito a atuação pelos lados da Coreia do Norte, o nosso quintal também não vai muito bem. De acordo com pesquisa do Instituto Datafolha, de junho deste ano, 68% dos brasileiros não confiam nos partidos políticos, 64% não confiam na Presidência da República e 67% não confiam no Congresso (deputados e senadores). Onde está o problema?

A você que publica “textão” no Facebook ou manda áudio indignado no WhatsApp nos vários grupos, você não está sozinho. O mundo vive uma crise de representatividade sem precedentes: o tresloucado Donald Trump nos Estados Unidos, a divisão no Reino Unido em torno do Brexit (saída do grupo de países da União Europeia). Afinal, quem ou o que nos representa?

Como define o autor Marcos Nobre, no livro Choque de Democracia (escrito logo depois das chamas daquele junho de 2013), “a democracia está em estado de choque”. Esse estado pode denotar diversas reações: é comum ouvir que “nem parece que terão eleições”. Um torpor, talvez. A rotina incansável e impiedosa em que somos submetidos – e, com ela, telas, mensagens e informações que borbulham a todo momento – nos faz crer que será mais um final de semana. Não será apenas um final de semana: será um dos momentos mais importantes da incipiente história democrática do Brasil.

Se a maioria diz que a democracia é a melhor forma de governo, isso não quer dizer que seja perfeita. Feita de povo, não há como ser homogênea. E nem pura: afinal, não há muita diferença entre o político corrupto que condenamos e o cidadão que sonega impostos, por exemplo.

A despeito de quem o leitor e eleitor for votar, é preciso observar que estamos vivendo a história. Nossos filhos e netos, que num exercício de futurologia, se comunicarão via hologramas (chamadas de vídeo serão démodé), nos ouvirão contando sobre as discussões que tínhamos em um negócio chamado WhatsApp, que mandava mensagens de texto. Estamos vendo a história correr por nossos olhos, os fatos escorrerem por nossas mãos e pontas dos dedos.

Ou, a depender do que o futuro nos reservar, teremos um representante que rejeita as regras democráticas, que nega o oponente político, que tolera a violência ou a encoraja, ou tenha predileção em restringir algumas liberdades – sobretudo de oponentes. Nesse caso, ficaremos restritos a contar histórias para nossos filhos e netos. Nesse cenário, nem eu, nem você, nem eles, poderemos votar.

O futuro chega em uma manhã de domingo, e seus sinais e nossas vozes vão reverberar nos quatro cantos do Brasil.

foto: Pixabay



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