Histórias

Recortes do tempo – e de jornal – nos 105 anos de Vila Medeiros

O 11 de outubro é uma data especial para os moradores de Vila Medeiros. É que o bairro celebrou 105 anos de história – aliás, outubro é um mês em que vários bairros da Zona Norte foram fundados.

O bairro não é um dos mais antigos da capital. Criado nos idos de 1912, quando São Paulo deixava de ser provinciana para se tornar a metrópole pujante, Vila Medeiros possui características comuns a outros bairros quando falamos de sua fundação: loteamentos de imigrantes – no caso, por meio do português Francisco de Medeiros –, compra de terras, e povoamento de famílias conhecidas, como os Buono e os Mazzei.

Mas essa história você já leu aqui no SP Norte, na edição do ano passado, em outros jornais ou mesmo na Wikipedia. A internet, aliás, nos remete a histórias peculiares.

Igreja de Nossa Senhora do Loreto

Em uma dessas procuras, o Acervo do jornal O Estado de S. Paulo (disponível para assinantes) nos faz viajar por acontecimentos e fatos que, quando lemos hoje, parecem surreais. Mas algumas coisas mudam – apenas de forma.

Selecionamos um recorte de tempo: a década de 1950. Nesse tempo, Vila Medeiros era uma jovem em torno de seus 40 anos. Já o “jornalão” – que, aliás, é o responsável pela impressão deste SP Norte – estava consolidado: foi fundado em 1875.

Em 22 de dezembro de 1959.

O curioso em mergulhar nesses recortes de tempo é observar, além da linguagem rebuscada, a descrição de fatos em seus mínimos detalhes. Chega a ser incrível imaginar que, sem internet, os jornais impressos da época pudessem dar conta de tantas informações: de atropelamentos, passando por notas policiais; tudo era documentado.

As menções a Vila Medeiros estão, geralmente, em notícias de desabamentos, consequentes de chuvas – como o acontecido em 29 de dezembro de 1959 “no número 20 da Rua K, ruiu uma casa, causando ferimentos de natureza leve”. Antes, em 1950, uma novidade: “uma linha de ônibus rural” (rural!), que ligava o bairro ao Largo da Concórdia.

O requinte de detalhes à época é espantoso: mostrava nomes, placas de caminhões – ou autocaminhão, como era grafado à época. Até erros, como “o menor Reinaldi Ferreira dos santos, residente na Rua Dois, 22, foi atropelada por uma bicicleta”.

Em 23 de dezembro de 1956, o candidato a prefeito Prestes Maia, foi à Vila Medeiros “para um encontro preparatório com elementos do bairro […] Hoje, deverá percorrer outros bairros da periferia com o mesmo objetivo e instalando ‘comités’ de propaganda”.

Há também casos graves, como quando Oscar e Teresa Bleika, “sem o menor motivo”, “foram agredidos a golpes de bastão por João José de Freitas, soldado reformado da Força Pública, que se evadiu”. Ou quando o pequeno Nelson, de 4 anos, foi atropelado. O motorista levou o menor ao pronto-socorro e, no caminho, “atropelou e matou outro menor de identidade desconhecida”. Algo também parecia ser comum ao jornalismo daquela época: quando não se sabia o sobrenome de alguém, era identificado como “de Tal”.

 

6 de agosto de 1950

Apesar do esmero de detalhes, sobram textos, em uma época em que os jornais impressos tinham letrinhas espremidas, mas são rarefeitas as imagens.

Em meio às notícias do cotidiano – hoje, vistas em nossas timelines de Facebook e conversas do WhatsApp –, Vila Medeiros possui algo que, sim, só ela pode se gabar: acolhedora da paróquia de Nossa Senhora do Loreto, padroeira da aviação. E se estamos falando de aviões, tem tudo a ver com a Zona Norte. Não é, Santos-Dumont?

Entre 16 e 23 de outubro de 1956, foi celebrada a Semana da Asa. A ocasião celebrava o pai da aviação, e foi naquele ano que a “réplica do monumento de Bagatelle” fora inaugurada, quando a avenida que hoje leva o nome do “ilustre aeronauta patrício” era chamada de Radial Norte.

Disse o jornal à época: “As comemorações da efeméride terão, portanto, brilho excepcional: às 9h, na praça Cel. Fernando Prestes será realizada uma missa em intenção das vítimas da aviação. Para isso terá trasladada a imagem de N. S. de Loreto de sua capela em Vila Medeiros, Alto de Vila Maria, para o altar em frente à igreja de N. S. Auxiliadora. Essa trasladação deverá ser feita por helicóptero”.

A criação da igreja derivou de um acidente aéreo: foi criada por um casal de italianos que estava nas proximidades quando ocorreu a queda de um pequeno avião. Sobreviventes da tragédia, ergueram em nome do bairro o Santuário, que foi inaugurado em 11 de julho de 1954.

Recortes do tempo – e de jornal – nos 105 anos de Vila Medeiros


Topo