Carnaval 2019

“Zona Norte é Madureira!”: ouça o samba da X-9 em homenagem a Arlindo Cruz

A gênese da cultura brasileira é formada por suas diversas formas, materiais e imateriais, que dão vida àquilo que chamamos de sociedade. Cultura no sentido mais amplo: de cultuar, de cultivar. Do cultivo, germinam a resistência, a graça, a beleza, os sabores e dissabores de um povo que cultua seus deus(es) e energias.

Não é tarefa fácil homenagear um dos mais consagrados brasileiros. Não especificamente um “artista brasileiro”, um “sambista brasileiro”, uma “personalidade brasileira”. Mas celebrar um dos que carregam, em sua criação cultural, a gênese de um país: canções cercadas de luta e suor, ao mesmo tempo amparadas em um mundo melhor de quem só faz o bem, de vivências no asfalto e na favela, das condições intrínsecas de um Brasil que clama por felicidade em tempos tão sombrios. Eis Arlindo Cruz.

Assumido o desafio (e a honra) de homenagear Arlindo, a X-9 Paulistana apresentou o samba-enredo que celebra o sambista na noite do último domingo (29/7). A escola é a primeira da Zona Norte a revelar o hino do desfile para o Carnaval 2019. Gaviões da Fiel, que reeditará o samba histórico de 1994, Colorado do Brás e Mancha Verde, que apresentou seu samba no último sábado (28/7), são as escolas que já tem seus hinos definidos.

X-9 Paulistana

Certa da magnitude que o enredo “O show tem que continuar! Meu lugar é cercado de luta e suor, esperança num mundo melhor!” necessitava de um samba à altura, a X-9 não realizou eliminatórias de samba. Convidou compositores e músicos para dar vida a uma das canções mais esperadas do carnaval 2019. Entre os autores, o intérprete da X-9 Darlan Alves e Arlindinho, filho de Arlindo Cruz.

Não é uma homenagem convencional: há enredos que passeiam pela vida e obra, cronológica, do homenageado (como a Vai-Vai em 2018 ao cantar Gilberto Gil). Outros usam suas obras como fio condutor (também a Vai-Vai, em 2015, quando foi campeã cantando Elis Regina).

Aqui há gênese de Arlindo Cruz: das bênçãos dos orixás, a energia que emana dos batuques e tambores identitários da cultura trazida dos ancestrais. Da sinergia entre as terras, chegou à “Serrinha”: o samba eternizado em canções que retratam a vida, ora do artista, ora do brasileiro, ora dele, artista brasileiro. O retrato de uma sociedade marcada por raiz e chaga, a humildade que clama e encanta, que pede abrigo e estende a mão.

Uma homenagem em forma de poesia, com pitadas de partido-alto, mas fiel a um enredo que propõe contar uma história em versos e melodias inspirados (Não subestime um filho de Xangô / A recompor a vida; É voz dos humildes por um pedaço de chão / Voz dos humildes por um pedaço de pão / Favela de gente sofrida, mas que valoriza a própria raiz / Aquela, que sente na pele as chagas da vida, a dor do país).

Não espere por um samba de explodir o Anhembi. Não caberia para contar (e cantar) a trajetória que quem musicalizou nossa brasilidade na doçura dos versos e da voz. Um lindo samba, de uma segunda estrofe mais inspirada, refrões para botar o sorriso no rosto.

A gravação do samba tem a participação de Beth Carvalho, Péricles, Dudu Nobre, Leandro Lehart, Ronaldo (ex-Fundo de Quintal), Prettos, Reinaldo, Armando Polêmico, Marquynhos Sensação, Xande de Pilares, o grupo Fundo de Quintal, Anderson e André do grupo Molejo, integrantes da Velha Guarda da X-9, Vai-Vai, Camisa Verde e Branco, Unidos do Peruche e Nenê de Vila Matilde, Turma do Pagode, Leandro Sapucahy e Arlindinho Cruz.

A Parada Inglesa se transforma em Madureira, doce lugar com mil coisas para se dizer. O difícil é saber terminar. A X-9 Paulistana será a sexta a desfilar na primeira noite de desfiles (1º/3). Confira o samba e o clipe oficial da obra, :

Compositores: Arlindo Neto, André Diniz, Cláudio Russo, Márcio André Filho, Valência e Darlan Alves
Intérprete: Darlan Alves

Samba de arerê pra você voltar
Zona Norte é Madureira
Ando louco de saudade… Olha o povo pedindo bis
Ainda é tempo pra viver feliz

Não subestime um filho de Xangô
A recompor a vida
O alujá ecoa forte no rum
E o ylê de Ogum, convida
O ídolo parceiro, companheiro, irmão
Símbolo maior do samba em minha geração
Gênio, pai herói, o clarão da lua cheia… Candeia
Nos versos que ele semeou
Gira bailarina seu eterno amor
A porta-bandeira, frutos na tamarineira

Lalaia laia laia
O banjo no peito, sambista perfeito, o mestre imortal
Lalaia laia laia
O samba agradece, floresce no fundo do nosso quintal

Aos olhos graciosos de Oxalá
Serrinha marejou o seu olhar
Que brilha na coroa imperial
Um lume imponente e divinal
Da lança de São Jorge protetor
A esperança de um quixote sonhador
É voz dos humildes por um pedaço de chão
Voz dos humildes por um pedaço de pão
Favela de gente sofrida, mas que valoriza a própria raiz
Aquela, que sente na pele as chagas da vida, a dor do país
X-9 a cantar, conduz até seu lugar a luz
Pra continuar, o show de Arlindo Cruz

fotos: Divulgação X-9 Paulistana/ Igor Cantanhede / Eros Oliver / Bruno Falconeri / Darlan Alves
vídeo: Direção executiva: Pe Santana / Imagens e edição: Igor Cantanhede / Direção Geral: Darlan Alves



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