Brasil

Saneamento básico no Brasil: apenas 40% do esgoto é tratado

Capa da edição de novembro de 2016 da Revista Galileu. Capa mais didática, impossível.

O país está sujo. E não é apenas de corrupção e altas taxas de criminalidade. A falta de saneamento básico atinge todo o Brasil, mas concentra-se em maior parte na região Norte, segundos dados do Ministério das Cidades e do Instituto Trata Brasil (2014 e 2016, respectivamente). Em novembro de 2016, a revista Galileu deu um panorama do saneamento básico no país.

Leia mais: Vamos falar do saneamento básico na Zona Norte?

Ananindeua, cidade da região metropolitana de Belém (PA), é um exemplo do descaso com o tema. Segunda cidade mais populosa do estado, com cerca de meio milhão de habitantes, não possui sistema de coleta de esgoto entre os moradores. Zero. Algo como cidades europeias do século XIX.

Porém, o problema não é uma exclusividade daquela região. O saneamento básico deficiente também está presente em grandes cidades das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul. No Rio Grande do Sul, considerado um estado desenvolvido, a maior parte da coleta de esgoto é feita por meio de fossas sépticas ou rudimentares.

Mas, qual a principal causa da falta de saneamento nos principais centros urbanos, desconsiderando zonas rurais afastadas? Umas das atribuições está ligada às altas taxas de migração de moradores das zonas rurais às grandes cidades no século passado. O aumento descontrolado da população urbana não possibilitou que os governantes tivessem tempo e capacidade para entender o problema e superá-lo.

Outro fator que impossibilita o desenvolvimento de sistemas de coleta e tratamento de esgoto nas metrópoles é exatamente o tamanho dessas cidades em todos os sentidos (escala e população). Por ser um projeto sustentável de custo alto, poucas empresas estatais se comprometem a atender toda a população por não poderem oferecer qualidade no atendimento de forma igualitária. Ou seja, chegamos a um problema crucial: dinheiro.

Para solucionar a questão, algumas famílias desenvolveram sistemas próprios de coleta de esgoto. De acordo com o Censo do IBGE de 2010, 47% da população de cidades pequenas utiliza fossas rudimentares – que realizam a coleta de dejetos, mas não o processo de tratamento.

Construção da rede de esgoto da Sabesp em São Paulo.

No entanto, se o serviço não chega a grandes cidades por suas abrangências e extensão, por que os problemas e os riscos são maiores em cidades pequenas? Existem dois fatores que explicam as duas situações. Cidades grandes precisam de altos investimentos para levar o serviço a toda a população, e poucos governantes se engajam em criar um plano bem estruturado que possa encontrar benefícios (além de custos) no serviço. Já no caso das pequenas cidades, o problema está ligado à sua escala. Por serem cidades menores e com pouca população, não é atrativo às empresas levar o serviço para poucas pessoas, uma vez que em zonas rurais as casas ficam distantes umas das outras e o sistema não conseguiria suprir toda a população, exatamente por ser um projeto de alto custo.

Soluções

Algumas soluções vêm sendo desenvolvidas para driblar as questões que corriqueiramente atrapalham projetos sustentáveis de saneamento. Em São Carlos, cidade do interior de São Paulo, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) criou uma fossa biodigestora que não polui os lençóis freáticos e extrai o lixo líquido, transformando-o em fertilizante.

Fossa biodigestora da Embrapa. (foto: Pedro Hernandes)

Outra solução é a maior participação das empresas privadas nos processos. Uma vez integradas aos projetos, as mesmas podem auxiliar as companhias estatais, já que os governantes clamam por recursos. Mas essa solução não é 100% certeira, já que empresários visam obter lucro (e não há problema nisso), o processo é caro e, muitas vezes, pouco atrativo. Por isso, a população poderia ser submetida a pagar contas mensais de água ainda maiores.

(Somente) água tratada não é garantia de qualidade de vida

Segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), cada brasileiro gera um quilo de lixo sólido por dia e cem litros de esgoto. Grande parte desse esgoto é despejado no ambiente por não contar com serviço de tratamento de dejetos. Mas, o que dizer de um país que consegue conectar cidades interioranas e afastadas à rede 3G de internet (correspondendo a 43,2% dos municípios de 2.409 cidades), porém não cria planos sustentáveis ideais para evitar doenças, advindas da falta do serviço?

Para evitar críticas, governantes apelam a malabarismos, enfatizando o abastecimento de água – afinal, 84,53% dos brasileiros possuíam água encanada em 2014, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um sistema mais fácil, barato e rápido de ser instalado em relação ao tratamento de esgoto.

Parte da população não sabe, mas não é porque você tem água tratada saindo da torneira que tem todas as garantias de que seu esgoto é tratado adequadamente. No Brasil, apenas 57,62% do esgoto é tratado, enquanto o abastecimento de água alcança 84,53% dos habitantes (dados de 2014).

Não somente a garantia de água e esgoto tratados, mas toda uma rede: sem cuidado, a saúde sofre. Sem saúde, as crianças – principais atingidas por doenças, como diarreia – tem suas atividades prejudicadas. Segundo o Instituto Federal do Pará, o saneamento básico disponível a toda a população poderia minimizar em até 7% o atraso escolar no país.

E, parafraseando a reportagem da revista Galileu, quem sabe o Brasil chegue, de fato, ao século XX.

foto (topo, em destaque): Danilo Ramos/Rede Brasil Atual (clique aqui e veja reportagem da Rede Brasil Atual)



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