Histórias

Santana de toda gente

Santana está no meio do caminho entre os bairros mais antigos da Zona Norte: o Jardim São Paulo e seus 79 anos celebrados na semana passada e os 437 anos da Freguesia do Ó, no próximo dia 29 de agosto. Mas a importância histórica de Santana, que faz 235 anos na próxima quarta-feira (26/7), é tão importante quanto a veterana Freguesia e o jovem Jardim.

Além de ter sido palco para os primórdios da Independência do Brasil, no antigo Solar dos Andradas – hoje o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), na Rua Alfredo Pujol –, Santana é considerada a “capital da Zona Norte” por sua grande concentração de moradores e comerciantes – a chegada do Metrô em 1975 impulsionou ainda mais a região.

Dessa região, cercada pelas movimentadas Rua Voluntários da Pátria e Av. Cruzeiro do Sul, emergiram famílias inteiras. Uma delas é a de David Fernandes, à frente da Ótica Voluntários. A empresa já está há 51 anos na região, e no mesmo lugar – história já contada aqui, quando a loja comemorou seu cinquentenário, em 2016.

Mas Fernandes tem muito mais histórias para contar. Afinal, sua família chegou nos idos 1917, com o tio Benjamin Ferreira e toda uma família, na Rua Carlos Escobar, onde nasceu o pai de David. Vindos da região norte de Portugal, a família chegou em peso a partir de 1927. Com parentes trabalhando em vários ramos, como as indústrias Matarazzo, ferreiros nos portões da estação Sorocabana, vendedores da Companhia União – de açúcar, ainda em carroças, pelas ruas e armazéns da Zona Norte.

Além da ótica, outros integrantes da família também se espalharam por outros ramos, como a padaria Estrela Polar, na esquina da Rua Dr. César com a Voluntários, por meio do tio Benjamin Ferreira, em 1925. “É uma história muito bonita de Santana. A gente pegou esse crescimento: tinha a família dos armênios que faziam sapatos, a família Kerlakhian; tinham os portugueses, a Luzitana, um grande depósito de mudanças da família Monteiro de Carvalho”, rememora David.

Essa miscigenação de povos é o que faz de Santana, para David Fernandes, um bairro único, agregando outros povos, como libaneses, espanhóis, italianos. Muitos deles, fazendo morada em Santana, também cresceram junto com o bairro. Famílias como Carbonari, Capeletii, Bertolli, Chamma, Giacosa… São muitos nomes, e muitas antigas empresas: Calçados Hollywood, lojas Glória, Vantajosa, Pontal…

Tal conhecimento não é à toa: nascido praticamente atrás de um balcão de ótica, o filho de Arthur Fernandes, fundador da Ótica Voluntários, viu os antigos amigos e colegas do pai, ganhando o conhecimento de várias famílias do bairro. “Eu ia com o meu pai nos lugares. Tinha evento na Associação Comercial? Eu ia com ele. Todos esses comerciantes antigos, a gente acabou conhecendo desde criança. Eu costumo dizer na Associação que sou o único que conheceu todos os superintendentes!”, diverte-se Fernandes, já que na juventude conheceu os antigos presidentes da Associação criada na década de 1950.

Do alto da colina, a primeira transmissão de voz no Brasil

Atual Colégio Santana foi palco de importantes feitos no bairro

Se um lugar figura entre os mais antigos de Santana, este é o colégio que carrega o nome do bairro. Erguido em 1894, quando Santana ainda era repleta de colinas, o Colégio Santana é outro local da região que tem participação efetiva na história do Brasil – e, no caso, até do mundo.

No prédio, Padre Roberto Landell de Moura foi pioneiro em realizar testes de transmissão de voz humana sem fios. Para isso, Moura contou com a ajuda da Irmã Maria Virgínia Faraldi, integrante da Congregação de São José de Chambéry. A congregação de origem francesa é a responsável pela vinda das irmãs ao bairro.

Depois dos testes, em 1912 era criada a primeira linha telefônica do bairro, com a ajuda das Irmãs. O Colégio Santana, naqueles tempos, era um colégio interno para moças e meninas. Outra conquista das religiosas foi a implantação de um bonde, que passava pela Rua Conselheiro Moreira de Barros e levava as alunas ao colégio.

São 123 anos de história, mais da metade dos 235 anos completados pelo bairro. Do alto da colina – hoje tomada pelas construções, prédios e residências da Rua Voluntários da Pátria – emergia a voz, a transmissão de conhecimento. Conhecimento transmitido para várias gerações, por meio do nosso bem maior: a educação.

Dada a importância da instituição para o bairro, pedimos ao Colégio Santana um artigo sobre a escola e sua contribuição para a região. Assinado pela Diretora Geral, Irmã Geralda Neuza Hipólita, e pela Diretora Educacional Thaís Sant’Ana de Moraes, o texto dá mais detalhes dessa história, bem como o atual cenário educacional.

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