Editorial | Três acidentes em três anos: o que fazer com o Campo de Marte?

0
2702
Provável localização do futuro parque, à esquerda, próximo aos campos de futebol demarcados

Em 1984, um bimotor caiu em três casas no bairro do Carandiru, na rua Genésio Pereira, vitimando as seis pessoas que estavam no avião e um pedreiro que estava em um imóvel. Três moradores ficaram gravemente feridos.

Em 1995, um avião do modelo Cessna explodiu na Av. Santos Dumont e atingiu dois carros.

Em 2007, um jato modelo Learjet que ia em direção ao Rio de Janeiro caiu sobre residências na Casa Verde, na Rua Bernadino de Sena. O piloto e o copiloto foram as vítimas, além de seis moradores, entre elas um bebê.

Em março de 2016, outro acidente: um avião monomotor caiu após explodir em uma casa no Jardim São Bento, na rua Frei Machado. Entre as sete vítimas, Roger Agnelli, ex-presidente da empresa Vale.

Em julho deste ano, um avião caiu na pista do Campo de Marte, vitimando o piloto e ferindo seis pessoas.

Quatro meses depois, no último dia 30 de novembro, um avião caiu na Casa Verde, colidindo-se em residências. Piloto e co-piloto morreram. Onze pessoas ficaram feridas – entre elas, uma criança de oito anos, já com alta do hospital. Outros três feridos seguem internados em hospitais da cidade, vítimas de queimaduras por conta da explosão da aeronave.

Seis graves acidentes – sendo três em um espaço de aproximadamente três anos. Todos em bairros localizados nas cercanias do Aeroporto Campo de Marte, que opera com helicópteros e aeronaves de pequeno porte.

Inaugurado em 1929 – sim, o leitor não leu errado: o lugar, que já foi bombardeado durante a Revolução de 1932, tem 89 anos –, o Campo de Marte tornou-se um problema para a urbanização da capital.

Se em 1929 tudo era mato – de uma zona norte que custou a engrenar, em comparação com o desenvolvimento de outras áreas de São Paulo – hoje, a região está cada vez mais adensada e populosa. Localizado em Santana, um dos bairros mais habitados da região, o aeroporto e as dezenas de pousos e decolagens fazem daquelas cercanias um lugar de inquietação e medo constantes. Afinal, somente em 2018 foram dois acidentes graves.

Região de muitos prédios – o acidente de 2007 passou muito próximos a edifícios localizados na Av. Braz Leme, que cerca o Campo de Marte em determinados trechos –, a atual composição dos bairros torna o aeroporto uma ameaça aos moradores.

Ou, ainda, a pessoas de todos os cantos da cidade: lembre-se que a Av. Santos Dumont, endereço do aeroporto, é palco constante para eventos e shows de grande porte, como o 1º de Maio e a Marcha Para Jesus. As posições contrárias a esses eventos no local, muito escritas nas páginas deste SP Norte, não são necessariamente destinadas aos organizadores, mas ao perigo que estas concentrações de pessoas estavam/estão sujeitas. Um acidente desta magnitude seria uma tragédia sem precedentes.

A futura transformação do Campo de Marte em parque municipal, aos moldes do Ibirapuera, e a desativação gradual das atividades aeroviárias trazem perspectivas boas. Por outro lado, os trabalhadores que dependem do aeroporto para suas profissões devem ser assistidos de maneira que não sejam absolutamente prejudicados com a futura desativação – entidades de classe alegam que não há opções para atender a demanda dos voos.

O projeto do parque foi entregue há mais de um ano. O lugar é área federal – alvo de disputas com a municipalidade há pelo menos 60 anos –, e um acordo entre Prefeitura e Presidência foi firmado. Enquanto isso, oremos para que acidentes como os relatados acima não mais aconteçam.