Editorial

Editorial | Uma lição sem aprendizado

Nada como momentos de crise para aprendermos algo que possa contribuir com nosso aperfeiçoamento como pessoas, ou, neste caso, melhores cidadãos brasileiros. Será?

A paralisação dos caminhoneiros travou o país. Movimento totalmente legítimo e compreensível, já que nosso combustível é um dos mais caros; nossas estradas estão entre as piores do mundo; pedágios são absurdos, além de pagarmos IPVA altíssimo, entre dezenas de outros impostos, taxas e tarifas, seguros dos mais abusivos do mundo e produtos com até 51% de impostos embutidos de preço.

Com tudo isso, ainda achamos o frete caro neste país. O problema é o que sobra na mão desses caminhoneiros, que, muitas vezes, para reforçar os ganhos, têm de virar 48 horas ou mais dirigindo, muitos à base de substâncias nocivas que os mantêm acordados – o conhecido “rebite”. E, assim, tirando os custos de manutenção do caminhão, entre outros gastos, sobra muito pouco. Quantos já sucumbiram nessas estradas dormindo ao volante, no esforço para levar um pouco mais de dignidade às suas famílias?

Ficou clara ao país a importância desses trabalhadores em nosso dia a dia, bem como a geração de riqueza que proporcionam à nação. Por isso, suas reivindicações são coerentes e legítimas.

O que aprendemos com essa paralisação e suas consequências?

A primeira lição foi a clareza de uma situação: todos os governos instituídos democraticamente que passaram por aqui, e aqueles que continuam, não se preocuparam minimamente em conduzir nosso país a caminho do progresso contínuo, dada a dimensão territorial que temos. De que maneira? Construindo mais estradas – não sem antes melhorar as que já temos –, ampliando a malha ferroviária e hidroviária, além da construção de mais portos e aeroportos. Mas, não. O que assistimos nas últimas décadas foi a estagnação total dessas áreas. E no pouco realizado sobressai a podridão da corrupção, que gastou bilhões em construções paradas de portos, estradas de ferro abandonadas, rodovias, estradas, pontes e viadutos inacabados Brasil afora.

Essa mesma corrupção instituída legalmente em todos os governos levou nosso país à bancarrota de sua economia e de sua credibilidade internacional.

O que esperar de uma governança que impõe a condição de ser sócio majoritário das empresas? Nossa carga tributária é maior que qualquer rentabilidade gerada pela própria empresa ou para seus sócios, além de ser perpétua, sendo paga mesmo havendo prejuízo, diferentemente dos sócios, que são obrigados a arcar sozinhos com esse prejuízo. Pior, o governo nada faz para incentivar ou ajudar no crescimento das empresas. Pelo contrário: empresário no Brasil é tratado como bandido!

Como podemos respeitar a governança de um país que tira do trabalhador quatro meses de salário para cada ano trabalhado em impostos e contribuições, e nada oferece em troca? São valores incompatíveis com uma futura aposentadoria que deveria proporcionar uma velhice com dignidade. Ademais, o país possui uma das piores estruturas educacionais e de saúde do mundo, para quem mais precisa.

O que esperar de governantes que ainda regem este país atolados em denúncias de corrupção, e, pior, tudo continua igual: conchavos, acertos, interesses escusos. O Brasil ainda é um grande cassino, onde em boa parte dos poderes executivos, legislativos e até judiciários, as apostas acontecem dia e noite, e aqueles que possuem as cartas marcadas levam o prêmio.

É nauseante assistir a reportagens em que políticos dão entrevistas e se apresentam com a empáfia de representantes do povo, plenamente honestos, mesmo com o país todo sabendo que são verdadeiros ladrões. Ou quando ministros, senadores, deputados, vereadores, governadores, prefeitos, também corruptos, vêm com ladainhas para justificar o injustificável. Mas o pior mesmo é vermos políticos condenados e até aqueles já cumprindo pena exibirem-se como anjos imaculados, verdadeiros seres supremos acima da lei e da ordem, autoproclamando-se inocentes e denunciando injustiçados. Hipócritas e enganadores!

O que mais podemos aprender com os últimos acontecimentos?

Acredito que a partir do terceiro dia de paralisação tomaram forma aqueles verdadeiros cidadãos brasileiros, que numa situação dessa começaram a mostrar sua face diante do momento em que o país entraria num caos.

O momento em que entrepostos de abastecimento anunciavam que poderiam ficar sem produtos para suprir feirantes, supermercados, entre outros fornecedores, esses tais declarados cidadãos brasileiros já estavam vendendo produtos com ágio de até 500% ao consumidor final. Feirantes, ainda no domingo, vendiam mercadorias com preços exorbitantes, e na mesma feira havia barracas com preços praticados antes da greve.

Facilmente encontramos postos superfaturando o preço da gasolina. Valores esses que variavam entre R$ 9 e R$ 14. Com os protestos dos consumidores e denúncias ao Procon, os valores foram reduzidos, no entanto a média batia R$ 6 – que ainda é um absurdo. Nas filas, quilômetros de carros, motos e até pessoas com galões esperavam por muitas horas para abastecer, mas dispostas a pagarem esses preços.

Ora, por que o abuso de cobrar mais pelo combustível? É simples: passivamente, milhões de brasileiros desesperados, achando que o mundo iria acabar, pois não tinha gasolina em seus veículos. Retiro aqui os que expressamente necessitavam do carro e moto como meio de sobrevivência. Por outro lado, muitos se submeteram à corrupção e, pior, ainda também se sujeitaram a ela: um exemplo foram os motoristas de aplicativos e vários taxis que cobraram a mais para transportar os passageiros.

Muitos daqueles que estavam nas filas enchendo galões estavam vendendo-os a R$ 10 ou mais por litro, para os que se julgavam “espertinhos” por não estarem esperando sua vez nas filas. Ou seja: “tenho dinheiro, eu pago”!

Muitos outros abusos, cobranças indevidas, extorsões e violências desenfreadas em prol das reivindicações dos caminhoneiros foram exclusivamente cometidos por cidadãos brasileiros, ou seja, pelo povo. As oportunidades obscenas demonstraram o caráter de um povo, onde muitos se aproveitaram da situação para angariar vantagens e milhões se sujeitaram em aceitá-las, pois achavam que não tinham alternativa.

Enfim, o governo recuou, reduziu o preço do diesel (não da gasolina ou do etanol), entre outros acordos oferecidos aos caminhoneiros. Estes, em sua grande maioria, aceitaram as propostas. Mesmo assim, não conseguem voltar ao trabalho ou a suas casas: verdadeiros criminosos infiltrados nos movimentos, ligados a políticos ou partidos, impedem a liberação desses caminhões nas estradas, ameaçando-os, seja danificando o veículo e até mesmo com agressões. Barbárie.

Tem mais alguma coisa a aprender com tudo isso?

O Brasil perdeu bilhões e continuará a perder com toda esta novela. Não por culpa dos caminhoneiros, eles são os últimos na lista de culpados. Aliás, eles não estão nesta lista:

A lista se resume ao governo por dar o que não pode. Essa atitude terá reflexos corrosivos: além de continuar tirando o que não pode, o governo continuará vistas grossas à corrupção.

Ainda na lista, vem abaixo o próprio povo, que se corrompeu e deixou ser corrompido. Submeteu-se a aceitar tudo calado, pagando um alto preço, pois entende que não pode fazer, ou não quer fazer sacrifícios em prol do país e da sociedade.

Sabe o que realmente o povo brasileiro aprendeu com tudo isso?

Nada. Vão passar mais alguns dias, tudo voltará ao normal. A gasolina continuará cara, os impostos cada vez mais altos, o dólar indo à estratosfera, nossos ganhos diminuindo, a corrupção correndo solta e povo brasileiro passivamente assistindo a tudo como se fosse um grande espetáculo. Ou, talvez, uma ópera bufa.

Vamos continuar a furar fila pelos acostamentos quando as estradas estiverem paradas, pagar propina para agilizar situações burocráticas emperradas nos órgãos públicos, aceitar vantagens para ajudar este ou aquele amigo ou parente, oferecer vantagens com a finalidade de angariar algo em troca e milhares de outras situações que fazemos e aceitamos sem ao menos percebermos quanto isso custa a todos nós e ao país!

Mas há uma grande esperança no ar, que trará uma enorme alegria a população que festejará com muito orgulho a vitória que poderá ser alcançada.

Aí perguntam: “e as eleições? Momento de mudar?” O povo responde: “Nada disso, que perda de tempo! É a Copa, vamos torcer pelo hexa!”.

Vamos comemorar, beber, festejar, ficar vários dias sem trabalhar, sem produzir. Maravilha! Todos de bandeira na mão, cantando o “Hino Nacional”. Orgulho em ser brasileiro. Afinal, somos pentacampeões no futebol!

Lembremos também que somos menos que zero em saúde, educação, segurança e, principalmente, em honestidade com o dinheiro público.

Que venha a grande Copa, paixão de todos os brasileiros! Mas não vamos nos esquecer de que ainda estamos pagando a conta da última.

Foto: Fotos Públicas/Roberto Parizotti


Samir-Mohamed-TradDiretor do Grupo SP de Comunicação

Jornalista e Editor dos jornais SP e do portal de notícias SP Norte.

samirtrad@terra.com.br



Topo