Marcos Cintra

Marcos Cintra | Velhos princípios e a realidade tributária

A retomada da reforma tributária traz de volta argumentos de alguns tributaristas e economistas que evidenciam um apego fervoroso a princípios de finanças públicas escritos há mais de meio século. Repetem que uma estrutura tributária ideal deve contar com tributos neutros, simples, isonômicos, transparentes e não cumulativos.

Um exemplo dessa postura foi o artigo “Propostas exóticas”, de Clóvis Panzarini, publicado no O Estado de S. Paulo em 12 de outubro de 2017. O autor avalia que o Imposto Único sobre movimentação financeira é “extremamente simples, mas agressivo a todos os demais princípios”. Em relação à proposta do Centro de Cidadania Fiscal, que prevê um IVA para substituir cinco tributos incidentes sobre o consumo em um prazo de dez anos ele afirma: “Não tão simples, esse modelo seria neutro, transparente e isonômico”. Quanto ao projeto do Deputado Luiz Carlos Hauly, que prevê fundamentalmente um IVA e um Imposto Seletivo, sua crítica se concentra no que ele chama de “um oceano de cumulatividade” que o sistema produziria por conta do tributo seletivo.

O posicionamento de Panzarini é favorável à adoção de uma IVA nacional porque ele atenderia princípios antigos, com ênfase na não cumulatividade e na neutralidade, enquanto que um tributo como o Imposto Único sobre movimentação financeira não o faria, com exceção da simplificação.

Vale citar que o mundo idealizado nos livros destoa da realidade. A neutralidade, por exemplo, é uma ficção. Todo tributo impacta sobre os preços. O ponto nesse aspecto diz respeito à escolha de um modelo que causa menor distorção sobre a atividade produtiva. Simulações mostram que o Imposto Único é preferível nesse quesito.

Quanto à suposta não cumulatividade do IVA cabe esclarecer que para atender esse requisito de modo puro o tributo precisaria contemplar créditos e débitos em todos os setores da produção, sem interrupção. A partir do momento que há quebra dessa cadeia ele se torna cumulativo, como ocorre em várias situações com o ICMS, um IVA estadual.

O posicionamento insistente na questão da cumulatividade e da neutralidade de Panzarini, e de outros adeptos do IVA, demonstra que eles não se deram ao trabalho de ler o estudo que realizei e que deu origem ao livro Bank Transactions: pathway to the single tax ideal. No capítulo 1, no tópico “Turnover versus Value-Added Taxes: Distortions and Advantages”, concluo que a cumulatividade no processo produtivo não é relevante, uma vez que se dissipa logo nas primeiras etapas de produção e pesa pouco no preço final. No capítulo 2, há simulações mostrando que um IVA causa maior impacto sobre os preços relativos comparativamente a um tributo cumulativo como o Imposto Único sobre a movimentação financeira.

O Ex-Senador Roberto Campos já dizia nos anos 1990 que o IVA “é um esforço de aperfeiçoamento do obsoleto”. Isso continua válido em nosso país atualmente, porque alguns economistas ainda veem a economia sob a ótica de uma racionalidade, base para a construção de teorias tributárias nos anos 1950, que não existe na prática. O prêmio Nobel de Economia de 2017, Richard Thaler, mostra em seus estudos que os seres humanos não são sempre racionais e que suas ações são baseadas em questões subjetivas e culturais, fatores que muitas vezes pesam mais que a racionalidade.

Os adeptos do IVA deveriam se dar ao trabalho de analisar de modo criterioso e sem preconceito o Imposto Único sobre movimentação financeira. Se assim o fizerem verão que, mesmo cumulativo, ele é superior ao IVA.


marcos-cintraDoutor em Economia pela Universidade Harvard, professor titular de Economia na FGV. Foi deputado federal (1999-2003) e autor do projeto do Imposto único. É Presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP).
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