Zona Norte

Zona Norte tem 3 dos 10 distritos com mais casos de feminicídios em SP

De acordo com o Mapa da Desigualdade 2019, divulgado no mês de novembro, as regiões de Jaçanã, Casa Verde e Vila Guilherme estão entre os 10 distritos com mais registros de casos de feminicídio na capital paulista. O relatório apresentou números das 96 regiões do município.

Dos três distritos da zona norte, Vila Guilherme destaca-se por estar entre as três regiões mais perigosa para as mulheres, contabilizando 3,54 ocorrências de feminicídio a cada 10 mil mulheres. Casa Verde (2,29) surge em quinto lugar e Jaçanã (2,05) fica na sétima posição.

No entanto, vale mencionar que os bairros Sé e Barra Funda, primeira e segunda colocação, respectivamente, são conhecidos por serem regiões comerciais, ou seja, locais de intensa movimentação e concentração de pessoas, o que ressalta ainda mais o problema de Vila Guilherme, região com características mais residencial.

Para ajudar a analisar esses números, a assistente social e especialista em Gênero e Diversidade, Ivanise Helena dos Santos, revela que o feminicídio é herança de uma violência histórica: “Os altos índices de violência contra a mulher são resultantes das relações desiguais entre os gêneros observando-se os aspectos sócio-históricos-culturais”.

Delegacia de Policia de Defesa da Mulher – Foto: Reprodução/Facebook

Para Ivanise, o debate de gênero está cada vez mais em evidência e pode encorajar as mulheres vítimas de violência em registrar denúncia: “Penso que na atualidade essa discussão sobre relação desiguais entre os gêneros está se amplificado, inclusive pela mídia, e as mulheres se sentem encorajadas a fazer a denúncia”.

Segundo ela, existem poucos espaços na cidade que consegue proporcionar o acolhimento às mulheres: “Vejam o exemplo das Delegacias de Defesa para Mulheres [DDM], na zona norte temos somente uma delegacia para atender todos os casos de violência, com uma estrutura e equipe que não atinge as necessidades das vítimas e não oferece um ambiente acolhedor e humanizado”.

Violência de gênero + preconceito

A violência de gênero é ainda mais grave quando envolve questões raciais e classe social: “As mulheres pretas, somente pela questão da raça/etnia já estão vulneráveis a situações de violência, se somarmos a isso outros marcadores sociais de diferença como, desfavorecimento econômico e residentes nas periferias a exposição se agrava”, comenta a assistente social.

Acolhimento

A melhor maneira para solucionar o problema é denunciar os casos de violência. No entanto, de acordo com Ivanise, o Estado precisa melhorar o acolhimento da vítima: “Acredito que o atendimento às mulheres vítimas de violência tem que ser realizado de forma acolhedora, com uma escuta qualificada, baseada na comunicação não violenta e ações humanizadas”.

Solução

Segundo Ivanise, a solução do problema não é algo simples: “Além de oferecer apoio, as vítimas necessitam de informação, de serviços que as retirem, junto com seus filhos, do espaço doméstico onde geralmente ocorrem as violências”.

Além disso, a assistente social destaca que falta políticas públicas que garanta a segurança e independência da mulher: “Para tanto, somente uma gama de políticas públicas (justiça, educação, habitação, emprego, saúde, assistência social etc.) articuladas intersetorialmente e associadas a rede familiar e comunitária, movimentos de defesa da mulheres, entre outros, podem ser elementos que facilitem o rompimento do ciclo de violência”.

Mortalidade Materna

Não são apenas nos índices de feminicídio que Jaçanã destaca-se. O Mapa revelou que a região está entre os 10 distritos com mais casos de mortalidade materna de São Paulo. Esse problema acaba não sendo uma novidade, pois no ano passado Jaçanã figurava em terceiro lugar dos distritos da capital paulista que mais ocorria essa fatalidade.

A nova pesquisa mostrou uma evidente melhora nos índices de Jaçanã. No Mapa de 2018 o bairro registrava 25,25 fatalidades a cada 10 mil habitantes, já neste ano houve uma redução para 16,26, significando uma queda de 36%.

O que diz a SSP sobre a taxa de feminicídio?

A Secretária de Segurança Publica (SSP) respondeu que “não comenta pesquisas cuja metodologia desconhece” ao se referir sobre o Mapa da Desigualdade. No entanto, vale mencionar que na pesquisa do Mapa da Desigualdade de 2019 foi utilizado a própria Secretária como fonte de informação, além do Ministério Publico de São Paulo, IBGE e Fundação Seade.

Na mesma nota, a SSP revela que “ampliou de uma para 10 as DDMs [Delegacias de Defesa para Mulheres] 24 horas no Estado, incluindo a 4ª DDM responsável pela região norte”. Além disso, o governo também criou o SOS Mulher, aplicativo que prioriza o atendimento às vítimas com medidas protetivas.

O que diz a SMS sobre a taxa de mortalidade materna?

Sobre a taxa de mortalidade materna no distrito de Jaçanã, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), informou que “desempenha diversas ações para redução das ocorrências de morte materna” citando como exemplo:

  • Revisão dos Protocolos Assistenciais para qualificar o atendimento ao pré-natal, ao parto e ao puerpério;
  • Ações de capacitação para a abordagem da emergência hipertensiva nas unidades da rede de Atenção Básica;
  • Implantação da Rede Municipal de Atenção Materno-Infantil – Mãe Paulistana;
  • Cursos e Oficinas de Atualização em Mortalidade Materna para os Interlocutores e profissionais da Atenção Básica relacionadas à gravidez indesejada com a disponibilização ampla de todos os métodos contraceptivos, com foco especial na colocação do DIU pós-parto e na disponibilização de implantes sub-dérmicos para população vulnerável.

Por fim, a SMS declara que todas essas ações “são realizadas em toda a capital paulista, incluindo o distrito do Jaçanã, com reforço junto às Coordenadorias Regionais e Supervisões Técnicas de Saúde para a identificação de demandas locais e abordagens específicas, atuando de acordo com cada realidade de diferentes regiões do município de São Paulo”.

Foto: Acácio Pinheiro/Agência Brasília



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