Histórias

Ayrton Senna do Brasil, Ayrton Senna da Zona Norte

*Matéria originalmente publicada na edição 609 do Jornal SP Norte, em 2014.

Março de 1960. O dia 21 daquele mês trazia ao mundo aquele que ficaria imortalizado na memória dos brasileiros, especialmente dos moradores da Zona Norte. Foi no bairro de Santana, na Rua Aviador Gil Guilherme (em frente ao Campo de Marte), que Ayrton Senna da Silva iniciou seu caminho para as vitórias.

Os amigos e vizinhos da família, nos bairros da Zona Norte, são fundamentais para saber como foi o início da carreira, os primeiros passos, os primeiros metros percorridos. São pessoas, vizinhos e comerciantes, que tiveram a oportunidade de tirar uma foto ou guardar, nem que por instantes, um momento especial de Senna na região. São memórias gravadas na mente de cada morador, e o quanto foi querido na Zona Norte.

A família Senna da Silva saiu de Santana e foi morar na Rua Condessa Siciliano, no Jardim São Paulo. Nessa época, Ayrton ganhou o apelido de “Beco”. Carinhoso apelido que foi dado pela família, desde pequeno.

Nas ruas do Jardim São Paulo, o futuro piloto começou a percorrer os primeiros metros com seu kart, e se interessou pelo assunto. Seu pai, Milton, era quem o incentivava. Dono da Univel, empresa de autopeças que ficava no bairro da Vila Albertina, Milton construiu o primeiro carro de kart do futuro campeão com um motor de geladeira, nada potente, quando comparado às máquinas que Ayrton pilotaria. Senna tinha apenas quatro anos e brincava de montar e desmontar as peças. Aos 10 anos, pilotava nos finais de semana, no Parque Anhembi, e já demonstrava talento e determinação.

O carrinho de kart passou a circular pelo bairro do Tremembé, quando a família se mudou para a Rua Pedro. Era comum ouvir o ronco dos motores pelas ruas da Região, e os vizinhos sequer imaginavam que o garoto seria um futuro campeão.

Vida de estudante

Senna estudou nos colégios Jardim São Paulo e Santana. O primeiro foi onde o piloto começou seus estudos, no período pré-escolar. Ayrton permaneceu no Jardim São Paulo por apenas dois anos, em 1965 e 1966. Maria Elisa, atual Coordenadora do Colégio, destaca: “Nós sentimos muita honra pelo fato de o grande piloto Ayrton Senna ter iniciado seus estudos conosco”.

Depois, foi a vez de o Colégio Santana receber o ídolo. Ayrton estudou no tradicional Colégio do 1º ao 4º ano. Centenário e religioso, o Colégio Santana era dividido com alas para moças e rapazes. Senna teve de sair do colégio, pois o 5º ano não possuía turmas de meninos. O Colégio também educou a mãe do piloto, Dona Neide, e os irmãos Viviane e Leonardo, e Senna concluiu os estudos básicos, no Colégio Rio Branco.

Dona Maru, assistente administrativa e que também estudou no Colégio Santana, sempre exalta o fato de o piloto ter feito parte da história do local. “Emociono-me ao ver os arquivos. Temos guardados todos os recortes, jornais e revistas de quem nos procurou para falar sobre ele. Até jornalistas do Japão já vieram nos visitar. É um orgulho”. No Colégio, as lembranças do piloto estão presentes em folders de divulgação, cartazes e em um quadro pintado por um ex-aluno em homenagem a Senna.

Torcida organizada

A Zona Norte também foi berço da primeira torcida organizada do piloto. Fundada pelo advogado Adilson Carvalho e outros fãs, em 1988, a Torcida Ayrton Senna (TAS) teve suas primeiras reuniões na casa de Adilson, na Vila Gustavo.

Com o crescimento da torcida, outros locais foram palco das reuniões. Primeiro, na Discoteca Zoom, na Rua Dr. César. Depois, uma casa na Vila Maria, que era o antigo escritório de Ayrton. A TAS permaneceu no Bairro por dez anos, de 1992 a 2002. Nesse período, a casa tornou-se um memorial, com fotos e artigos pessoais do piloto.

Hoje, as lembranças de Ayrton estão localizadas em um imóvel cedido pela família Senna, na Rua Conselheiro Saraiva, em Santana.

Comemorações e negócios na Zona Norte

As vitórias de Ayrton Senna eram, algumas vezes, comemoradas na Zona Norte. Mesmo que Senna tivesse pouco tempo para ficar no Brasil, em razão das corridas pelo mundo, momentos inesquecíveis ficaram na memória dos moradores da Região. Uma dessas raras imagens foi quando o piloto ganhou, pela primeira vez, o GP Brasil de Fórmula 1, em 1991. Na casa da família, na Av. Nova Cantareira, Senna tremulava a bandeira do Brasil para a multidão que tentava tirar uma foto ou, simplesmente, gravar aquele instante único, histórico. Uma imagem que não sairá da cabeça dos moradores da Zona Norte.

Com o crescimento dos negócios e da carreira, Senna estabeleceu seu escritório na Rua Dr. Olavo Egídio, em Santana, e foi o responsável pela construção do heliponto do prédio. Ali, o Instituto Ayrton Senna deu os primeiros passos, por meio de projetos sociais e educativos, um desejo do piloto. Atualmente, o Instituto fica em Pinheiros e é dirigido pela irmã, Viviane Senna.

Legado para a história

As obras do Instituto Ayrton Senna contribuem para a formação e educação de centenas de crianças e jovens. Os ideais de vitória, determinação e respeito são traços daquele menino, nascido na Zona Norte, deixados até hoje para a construção de um Brasil melhor. Seu nome está espalhado por várias obras de arte, ruas, praças e localidades pelo mundo. A Estação de Metrô Jardim São Paulo ganhou, em 2011, o nome do piloto. Uma homenagem justa àquele que é o mais ilustre representante da Região.

Ayrton Senna marcou presença em nossas vidas, deixando uma lacuna, jamais preenchida depois do acidente, em Ímola, na Itália. Os domingos, quando nos reuníamos com a família e amigos para comemorar cada vitória, nunca mais foram os mesmos. O “Tema da Vitória”, música entoada pelas transmissões da Rede Globo, a cada conquista do piloto, virou sinônimo de Ayrton Senna.

São 20 anos sem o piloto, mas Ayrton se mantém vivo em nossas lembranças e corações, especialmente na Zona Norte, onde o piloto nasceu e cresceu. Tivemos o privilégio de ver tão de perto o início da trajetória do campeão.

Essa foi a história de Ayrton Senna da Silva. Ayrton Senna do Brasil, Ayrton Senna da Zona Norte.

fotos: Reprodução; Paulo Pinto (topo)/ Fotos Públicas (27/03/1994); Paulo Pinto/ Fotos Públicas (28/03/1993)



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