Histórias

O povo é quem manda! Nos 129 anos do Mandaqui, histórias de sua gente

Você já viu – ou deve estar cansado de saber – que Mandaqui, na língua indígena tupi, significa “rio dos bagres”; ou, ainda “molhado pela chuva”, no guarani. As versões do nome do bairro que comemora 129 anos em 6 de outubro também incluem uma lenda: um português, embebedado de vinho, saía pelas ruas gritando “quem manda aqui sou eu!”.

A expressão pegou, e os moradores passaram dizer que o lugar era do “mandaqui”. Um nome sugestivo e curioso, para um bairro em que existem mais de 100 mil pessoas que mandam aqui e acolá.

Suas origens também são compartilhadas com outros bairros: fazendas vendidas e compradas por barões, terrenos loteados por imigrantes, famílias abastadas que saíam do centro da incipiente São Paulo em busca de novas terras.

Essas histórias estão presentes em reportagens mil – inclusive aqui do SP Norte. Porém, se no Mandaqui é o povo quem manda, uma dica valiosa e para rememorar pedaços de tempos antigos, está no site São Paulo Minha Cidade. Ali, basta se cadastrar para despertar o escritor que existe em você – ou, pelo menos, relatar memórias para que todos tenham acesso.

Em uma delas, uma descrição nostálgica das andanças no bairro do Mandaqui, de uma época em que havia ainda o trenzinho da Cantareira que por ali passava. Esta aliás, tinha seus resquícios até 1999, nas proximidades do cruzamento da Av. Eng. Caetano Álvares e a Rua Voluntários da Pátria.

Entre conversas sobre os preços do Mercado da Cantareira e a “roubalheira” dos preços – vejam só, certas coisas não mudam! – pairava na época o “sereno da noite”, um “ar de frescura serrana”, a “descarga de fumaça das rodas da locomotiva”… Coisas peculiares que somente quem viveu a época pode contar.

Subidas e descidas de um bairro cheio de histórias, locais e casas que ainda resistem ao tempo, deixando às novas gerações um pedaço de memória, eternizada em relatos onde todos, de qualquer lugar, podem acessar – e imaginar aqueles tempos. Em um dos trechos das histórias de J. Grassi, retiradas do site São Paulo Minha Cidade, um resumo: “Que lástima! Mas o Mandaqui ficou marcado por ditos feitos na mente ainda de menino como um prosaico bairro de São Paulo, cheio de histórias memoráveis para se contar”.

Confira abaixo mais trechos dessas histórias:

“O que há de se fazer? Já tinha acontecido o inevitável. Agora tinha que enfrentar os ralhos da mãe. Fora realmente um imprudente, uma vez que sabia do carvão queimado pela máquina 32 da maria-fumaça, costumava espalhar pelo ar as fagulhas incandescentes.”

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“E, para reavivar a memória, lembrei-me daquele pequeno espaço de rua, onde havia um pequeno trecho da extinta estação do trem da Tramway Cantareira. Para ser exato, era ali, naquele mesmo lugar, a continuação da linha férrea que vinha de Santana e demandava ao bairro do Mandaqui.”

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“Apesar da longevidade do tempo e da modernidade atual, posso ainda ver, em algumas casas, as hortas todas pintadas com as cores do verde nos prosaicos canteiros no fundo dos quintais. Hoje conservo intacto na memória, coisas do imaginário, quando ainda se é criança.”

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“Olho agora novamente para o alto da rua, e vejo ainda, numa reentrância do terreno, o barranco e a velha árvore centenária, a Liana. Ela continua lá, da mesma forma que a deixei no tempo de minha infância. Está ali, com seus extensos ramos pendentes de cipós esparramados, e seu copado farfalhante flutuando suas generosas hastes pelo espaço azul do céu.

Olhando-a novamente, parece-me como uma velha e fiel companheira, que me saudava na minha chegada e me esperava sempre imóvel no mesmo lugar, pelo meu breve regresso. E neste cenário nostálgico, hoje um pouco modificado, o Mandaqui ainda traz, na luminosidade do dia, aquela frescura serrana, no ar grande, ar aberto e alto.

Agora desço a rua espremida entre o recorte alto do barranco e o apinhado baixo de casinhas da rua. O ar é toda uma transpiração fria de água e folhas. Respiro forte. Provo desse ar, como quem prova uma saudade de um tempo distante da minha infância e da velha Liana no meu querido Mandaqui.”

fonte: São Paulo Minha Cidade
fotos: Estações Ferroviárias do Brasil (trens) e Wikipedia

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