Música

Leandro Lehart: “missionário” da música busca a revitalização do samba

Muito provavelmente o menino que pegava o ônibus da linha 1732 (Vila Sabrina-Metrô Santa Cecília) certamente não imaginaria que viesse a se tornar um dos maiores sambistas – e, acima de tudo, músico – do Brasil. Debaixo do braço, o cavaquinho que acompanhou Leandro Lehart por vários shows em bares da Zona Norte e deu origem a um dos maiores grupos de pagode do país, o Art Popular.

Hoje, o já experiente Leandro Lehart aposta, arrisca e mantém vivo o samba. O gênero, que não vive os tempos áureos de Art Popular, Katinguelê e companhia, resiste nos guetos, nas escolas de samba e na inventividade de músicos que, sem perder a essência, introduz ao samba misturas que vão do eletrônico e rap ao singelo – porém complexo – voz e violão. E este último é o ponto central do novo trabalho de Lehart: Violão é no Fundo de Quintal. O disco, lançado no fim de 2016, será apresentado neste sábado, no Teatro APCD.

Leandro Lehart, em entrevista ao SP Norte, contou que o trabalho “nasceu por acaso, cantando em casa”. “Tinham algumas pessoas vendo, ficaram emocionadas”, justificando a escolha por registrar clássicos do Fundo de Quintal em voz e violão.

“O lance é que não são as mais conhecidas”, sobre o repertório do disco que será tocado no show. “São as músicas que eu tenho uma relação mais afetiva, desde criança. E tem uma garotada ouvindo coisas que nunca tinha ouvido. Está sendo uma experiência muito legal”, afirma. De fato, Violão é no Fundo de Quintal é um registro que se tornará uma referência – e Lehart tem feito disso um padrão.

Ele se define como um “missionário da música”. Tal fato é explicado – e mostra a incessante busca por revitalizar o gênero, ainda que bebendo nas raízes – neste e nos trabalhos anteriores. Em 2010, lançou Ensaio de Escola de Samba: um registro histórico dos maiores sambas de enredo de São Paulo. Lá estão clássicos como “Embaixada de Sonho e Bamba” (Mocidade Alegre, 1980), “A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente” (Gaviões da Fiel, 1994) e “Babalotim – A História dos Afoxés” (Leandro de Itaquera, 1988 e reeditado em 2017), e mais dez sambas que são verdadeiras joias. Um timaço de 45 músicos, entre batuqueiros e mestres de bateria, deu origem a um CD único.

Depois, partiu para a mistura do samba com ritmos eletrônicos e o rap – uma das faixas é em parceria com Emicida. Pode causar estranheza ouvir os pagodes clássicos do Art Popular, como “Temporal” e “Teu Cheiro”, com as batidas eletrônicas e vozes metalizadas, mas é uma forma de atualizar o ritmo e aproximá-lo dos novos anseios do público. “A gente se criou no final dos anos 1980, tinha um monte de coisa acontecendo. A influência que os grupos de pagode tiveram da música negra americana sempre existiu. O samba nos últimos tempos perdeu espaço por causa disso, porque não conseguiu se atualizar, se modernizar. Mas é um processo lento. Exaltando as coisas boas, dos pioneiros, dos que foram importantes, mas também dando um passo à frente e tentando fazer com que o samba não perca a sua essência. Que ele fale com a música eletrônica assim como os americanos falam com o rap, o blues”, explica.

Agora, com Violão é no Fundo de Quintal, Lehart reverencia o samba de raiz, ainda que o gênero não esteja no auge como em outros tempos. “A periferia é que domina a música popular, mas hoje não tem mais essa relação que a gente tinha. E o samba não conseguiu entender que a juventude quer ouvir coisas mais globalizadas”, afirma. De forma independente, toca seus trabalhos sem ser “escravo do sucesso e dos fracassos. A gente tem que ter nossa missão independentemente de qualquer coisa”.

O show será marcado pela emoção e surpresas ao público. E, também, um desafio. Afinal são canções em voz e violão, em um trabalho que demanda meticulosidade. “As pessoas entendem entender que aquele momento é de ouvir daquele jeito mesmo. Entende a proposta, respeita e viaja na ideia. E ficam emocionadas”, diz sobre a repercussão do disco. “É uma relação com a música em uma outra esfera, de um outro jeito”.

De outra esfera também é a relação de Leandro Lehart com a Zona Norte. Nascido na Parada Inglesa e hoje morador do Jardim São Bento, o músico não trocaria a região por nenhuma outra. Frequentou a X-9 Paulistana – desfilou quando criança, o pai foi alfaiate da comissão de frente; a mãe, diretora de harmonia. Quis ter uma escola de samba para chamar de sua – chegou a montar um bloco que desfilou pela Parada Inglesa. Hoje já não frequenta mais as quadras como antigamente – “música nunca foi competição”, diz sobre a atual situação das agremiações – e prefere dedicar-se a projetos únicos.

Lehart segue, embalando uma nova esperança, e cantando feliz numa só voz o amor ao samba – assim como a faixa que abre o disco, “Tudo é Festa”.



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