Copa 2018

Editorial | Esporte, futebol, identidade nacional e o erro

Este editorial foi escrito horas antes das quartas de final entre Brasil e Bélgica na Copa do Mundo da Rússia. O país, em meio a tantos desmandos debaixo das cortinas – como um projeto de lei que pode restringir a venda de produtos orgânicos em supermercados e flexibilizando o regimento de agrotóxicos; multinacionais envolvidas em escândalos de corrupção; a temerosa fala do Comandante do Exército ao afirmar que se as Forças Armadas intervierem, será para manter a democracia (fazendo lembrar o espúrio editorial do jornal O Globo, que bradou “Ressurge a Democracia!” quando a ditadura militar foi instaurada em 1964 – acompanha o Mundial da bola com expectativa (e apreensão).

E, se o clima é de futebol, é preciso discutir como o esporte é determinante para a construção de nossa identidade nacional. Para o bem e para o mal.

O toque de bola que encantou o mundo com Pelé e companhia não tinha o apelo emocional que vemos hoje (ou, nem tanto, mas a camisa amarelo Canarinho pesa). Aliás, quando a Seleção abandonou o primeiro uniforme, de bermuda azul e camisas brancas, para verde e amarelo, respectivamente, a crítica foi geral. Crítica de uma elite (sempre assanhada) que não se conformava com as cores da bandeira no uniforme de um esporte avivado pelas camadas mais pobres da população, ainda que criado por uma elite inglesa de um tal Charles Müller.

Criada depois da derrota de 1950 em pleno Maracanã para o Uruguai, o uniforme renovado – azul e amarelo-ouro – deu início à mística de nosso uniforme, trazendo à tona a magia que estas cores causam dentro das quatro linhas e a importância que este esporte tem para a construção de nossa identidade nacional.

O futebol, para o bem e para o mal, faz parte da nossa vivência em sociedade. Para o bem, pois, por ser o mais popular, atinge todas as camadas sociais. Em um país em que os mais pobres pouco têm acesso ao básico, mas têm ao lado de casa uma terra, uma bola e traves, o futebol é uma rota de fuga das mazelas que assolam nossas periferias. Nossa Zona Norte é um exemplo, com quatro jogadores nascidos aqui e integrantes da Seleção Brasileira. Projetos sociais e iniciativas populares tiram crianças que poderiam ser tragadas pelo crime, mas encontram no futebol – e nos estudos – o caminho para uma vida digna. O esporte é um agente transformador da sociedade.

Para o mal, pois justamente por sua popularidade e relação simbiótica com o torcedor, acaba por fazer de jogos verdadeiros feriados nacionais. Uma paixão válida, cheia de percalços, uma relação de amor e ódio – Neymar é a síntese de um Brasil em transe. Ao se tornar feriado, acaba por prejudicar vários setores: empresas paralisam suas atividades, muitos não honram com seus compromissos – os bares, por outro lado, não têm do que reclamar.

Ao mesmo tempo que tudo isso aí falado acima acontecia, o esporte brasileiro sofria mais uma dura baixa. Além do orçamento reduzidíssimo para 2018, o Ministério do Esporte viu mais uma redução: verbas oriundas de repasses das Loterias podem ser reduzidas. O objetivo é tirar do esporte – e também da cultura, outro Ministério afetado – e direcionar para a segurança pública, outro grave problema de nossa sociedade.

O (des)governo de Michel Temer (MDB) aplica, nesse caso, o típico falatório de quem pouco quer pensar, mas adora bravatear coisas do tipo “não se fazem hospitais com estádios”. Tirar de duas áreas fundamentais para a construção de nossa identidade nacional e colocar em um problema de magnitude nacional é acabar com a construção de sonhos Brasil afora.

A identidade nacional não é representada apenas por uma bandeira ou camisa. Ela é construída ponto a ponto, fio a fio, em que todos se conectam para construir uma nação mais igual, com oportunidades para todos, sem distinção.

Ao aplicar o toma lá, dá cá da ingerência nacional, os governantes do país negam sua própria nação. Suas próprias, enfim, identidades.

foto: Reprodução/Google Arts & Culture/ Museu do Futebol – A História da Camisa Canarinho: Como o amarelo-ouro passou a vestir o Brasil



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